A incompatibilidade do desenvolvimento sustentável com o moderno sistema produtor de consumidores


Introdução

Ao leitor, que fique claro, não serão apresentadas soluções aos problemas ambientais presentes e futuros. Pretende-se demonstrar, com o manifesto artigo, a incompatibilidade entre o desenvolvimento sustentável e o vigente sistema capitalista produtor de consumidores. E, por mais pessimista que possa ser considerado, este artigo é realista.

No primeiro capítulo, explicar-se-á como o capitalismo e a globalização econômica transformaram a sociedade atual em consumidora, e quais os perigos dela para o meio ambiente.
Por conseguinte, dar-se-á um panorama do presente e do futuro de nosso planeta, demonstrando-os sobre os pilares da crise ambiental: aumento populacional, consumismo e tecnologia.
Ao final, concluir-se-á que a tentativa de um desenvolvimento sustentável é infundada e ilusória numa sociedade de consumidores, tanto pelos interesses políticos, quanto pelos econômicos.

1 A sociedade de consumidores

Vive-se numa era marcada pelo desenvolvimento tecnológico e pela troca de informações instantâneas, permitida e fomentada pela globalização econômica. As notícias correm o mundo rapidamente, e este, na mesma velocidade, transforma-se acompanhando o ritmo da sociedade globalizada. Os mercados, de igual modo, tornam-se avassaladores, com uma demanda promovida pelo consumismo e pela competitividade provocada por uma guerra desenfreada entre as grandes empresas, que, para entrarem no jogo e serem competitivas, adotam medidas economicamente favoráveis, mesmo que contrárias e destrutivas ao meio-ambiente.
A globalização, acima referida, é tida por Milton Santos como “uma fábrica de perversidades”, vez que ao contrário de homogeneizar o planeta, este está se tornando menos unido, além de que está estimulando o culto ao consumismo. Esta globalização perversa conseguiu, ainda, promover a institucionalização e o crescimento mundial do capitalismo, predomínio econômico que, atualmente, passa por crises de toda forma. O consumismo e a competitividade tornam-se, então, os pilares estruturais da crise geral do capitalismo globalizado.
Diferentemente da concorrência, na competitividade existe uma guerra em que tudo vale, onde a principal norma é esmagar o próximo, justificado, assim, “todo apelo à força” utilizada. Criam-se, portanto, individualidades possessivas e egoístas, provocando afrouxamento dos valores morais e afastamento da solidariedade.
Esta competitividade atinge de igual forma, não somente as empresas, mas, também, os Estados que lutam entre si, na tentativa de se tornarem globalizantes e não globalizados, ocasionando, deste modo, a morte da soberania e da política. Neste sentido, explica Milton Santos:
Esse sistema da perversidade inclui a morte da Política (com um P maiúsculo), já que a condução do processo político passa a ser atributo das grandes empresas. Junte-se a isso o processo de conformação da opinião pelas mídias, um dado importante no movimento de alienação trazido com a substituição do debate civilizatório pelo discurso único do mercado. Daí o ensinamento e o aprendizado de comportamentos dos quais estão ausentes objetivos finalísticos e éticos.
Por este motivo, atualmente, utiliza-se, com maior frequência, como sinônimo de “países em desenvolvimento”, o termo “mercados emergentes”, vez que a soberania numa sociedade de consumidores é do mercado de bens de consumo.
Há, diante disso, uma nova concepção do termo “cidadão”. Este passa a ser o consumidor efetivo e eficiente, aumentando, ainda mais, a já existente exclusão social, pois, neste modelo, só aquele tem direito a ter direitos, tendo em vista que os outros, os consumidores deficientes e defeituosos, numa sociedade que tem as estatísticas do PIB como medidor de sucesso e fracasso, são descartados por serem perigosos.
Desta forma, hoje, observa-se a origem de uma nova forma de sociedade, a dos consumidores, em que há uma inversão dos valores da produção, eis que os consumidores é quem são produzidos, antecedendo a produção dos produtos e serviços, o que é permitido pela publicidade e marketing das empresas, que lançam seus produtos sem mesmo saber de suas aplicações. Neste norte, disserta Milton Santos:
Daí, o império da informação e da publicidade. Tal remédio teria 1% de medicina e 99% de publicidade, mas todas as coisas do comércio acabam por ter essa composição: publicidade + materialidade; publicidade + serviços, e esse é o caso de tantas mercadorias cuja circulação é fundada numa propaganda insistente e frequentemente enganosa. Há toda essa maneira de organizar o consumo para permitir, em seguida, a organização da produção.
Do mesmo modo, assinala Zygmunt Bauman:
Na economia consumista, a regra é que primeiro os produtos apareçam (sendo inventados, descobertos por acaso ou planejados pelas agências de pesquisa e desenvolvimento), para só depois encontrar suas aplicações. Muitos deles, talvez a maioria, viajam com rapidez para o depósito de lixo, não conseguindo encontrar clientes interessados, ou até antes de começarem a tentar. Mas mesmo os poucos felizardos que conseguem encontrar ou invocar uma necessidade, desejo ou vontade cuja satisfação possam demonstrar ser relevante (ou ter a possibilidade de) logo tendem a sucumbir às pressões de outros produtos “novos e aperfeiçoados” (ou seja, que prometem fazer tudo que os outros podiam fazer, só que melhor e mais rápido – com o bônus extra de fazer algumas coisas que nenhum consumidor havia até então imaginado necessitar ou adquirir) muito antes de sua capacidade de funcionamento ter chegado ao seu predeterminado fim.
Nesse panorama consumista, a sociedade de consumidores produz um maligno paradigma de sobrevivência, em razão de sua prosperidade estar condicionada a não-satisfação permanente de seus membros, ou seja, a partir da criação do consumidor, o que importa é que o “novo” produto fabricado seja tão logo superado tecnologicamente por outro, com o único fim de “depreciar e desvalorizar os produtos de consumo logo depois de terem sido promovidos no universo dos desejos dos consumidores”.
Daí a perversidade do sistema, a exclusão social se faz necessária para o crescimento desta sociedade, pois gera uma frustração dos desejos dos excluídos, que buscam de todo modo uma aceitação social, tentando adquirir, mesmo que de forma violenta, os objetos produzidos mais pelo marketing do que pela utilidade.
Neste dilema, o próprio consumidor vira uma mercadoria, que, além de tentar alcançar a fama ou não se dissolver perante os cidadãos falhos, pretende “se tornar uma mercadoria notável, notada e cobiçada, uma mercadoria comentada, que se destaca da massa de mercadorias, impossível de ser ignorada, ridicularizada ou rejeitada”, sendo possível tão somente através da compra dos produtos de nova geração e descarte dos antigos.
A insatisfação duradoura, então, vira a alma da sociedade de consumidores. A estratégia de marketing das empresas muda e apoia-se na curta expectativa de vida do produto e na pequena utilidade proclamada, justamente para permitir uma maior troca de produtos defasados por novos.
Diante disso, o único modo de permitir a criação de uma felicidade, que embora instantânea, afasta, momentaneamente, a insatisfação, é o descarte dos objetos antigos, como bem explica Zygmunt Bauman:
Entre as maneiras com que o consumidor enfrenta a insatisfação, a principal é descartar os objetos que a causam. A sociedade de consumidores desvaloriza a durabilidade, igualando “velho” a “defasado”, impróprio para continuar sendo utilizado e destinado à lata de lixo. [...] A sociedade de consumidores é impensável sem uma florescente indústria de remoção do lixo. Não se espera dos consumidores que jurem lealdade aos objetos que obtêm com a intenção de consumir.
A partir daí é que se verifica o perigo ambiental gerado pela sociedade de consumidores, que, diferentemente da antiga sociedade de produtores, não ostenta um bem estável e duradouro, pois o que se busca é uma felicidade instantânea, motivada por um desejo de compra que está sempre crescendo. Nesse sentido, ministra Zygmunt Bauman:
Dificilmente poderia ser de outro jeito, já que o consumismo, em aguda oposição às formas de vida precedentes, associa a felicidade não tanto à satisfação de necessidades (como suas “versões oficiais” tendem a deixar implícito), mas a um volume e uma intensidade de desejos sempre crescentes, o que por sua vez implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la.
No mesmo norte, de acordo com Gilles Lipovetsky apud Najar Tubino:
A felicidade é o valor central, o grande ideal celebrado sem tréguas pela civilização consumista. Cada vez mais mercado, cada vez mais estimulações, viver melhor, cada vez mais indivíduo, cada vez mais exigência de felicidade”.
Nesta atual sociedade, não existe mais um valor sentimental agregado ao objeto, além de que, o tempo é precioso, e “chorar pelo leite derramado” poderia acarretar na perda da chance da compra de um novo produto.
A economia consumista, então, só funciona com o exagero e o desperdício, eis que “uma sociedade de consumo só pode ser uma sociedade do excesso e da extravagância – e, portanto, da redundância e do desperdício pródigo”.
Em consequência disto, dá-se um poder muito grande ao mercado de bens de consumo, que se torna “mais soberano do que os soberanos políticos, muito mais promovidos e ávidos por autopromoção, já que, além de apresentar as sentenças de exclusão, não permite apelação”. Isto porque a regulação do mercado de bens de consumo apresenta-se contrária aos fins da sociedade de consumidores e oposta aos ideais do capitalismo.
Esta sucumbência do Estado perante o mercado, também gera efeitos na ordem ambiental, eis que não se consegue tomar decisões que tirem o lucro das empresas e gere a estagnação da economia mundial.
Assim explica Zygmunt Bauman:
Muito mais revolucionária (e potencialmente fatal para o Estado, já que foi moldada durante a era moderna) é outra tendência que mina a soberania do Estado de modo muito mais profundo: a inclinação do Estado enfraquecido a passar muitas de suas funções para os lados, e não para cima, cedendo-as aos poderes impessoais dos mercados. Ou a rendição cada vez mais abrangente do Estado à chantagem das forças do mercado, contrariando as políticas preferidas e endossadas por seu eleitorado e tomando dos cidadãos o status de ponto de referência e árbitro final das propriedades políticas. [...] O Estado como um todo, incluindo seus braços jurídico e legislativo, torna-se um executor da soberania do mercado.
Portanto, vê-se que o dano ambiental é consequência primária da sociedade de consumidores. Os consumidores não diminuem o consumo. O Estado não freia o consumismo, vez que subordinado ao mercado de bens de consumo, e este, pensando tão somente na efetivação de seus lucros, não se importa com a questão ambiental que gera o atual capitalismo globalizado.

2 O mundo que morre

Em 2011 chegou-se à cifra de 7 (sete) bilhões de habitantes no mundo, verificando-se um crescimento populacional de aproximadamente 16,6% em 12 anos, quando o planeta Terra possuía 6 (seis) bilhões de pessoas.
Esta informação foi camuflada pela mídia como uma extraordinária e boa notícia, eis que demonstra os avanços da tecnologia, principalmente na área da medicina que permitiu a superioridade do índice de natalidade contra o da mortalidade.
Entrementes o aumento da perspectiva de vida, observa-se que a qualidade desta teve um decréscimo assustador, em razão dos múltiplos problemas mundiais, sendo um deles o próprio crescimento populacional, não permitindo a criação de uma visão otimista de um futuro próximo.
Uma das maiores ameaças que o mundo enfrenta, além deste exponencial aumento de habitantes na Terra, “é o ataque sem trégua ao meio ambiente decorrente da lógica da produção global e da direção dos seus vetores tecnológicos contidos nos atuais conceitos de progresso”, consequência esta, como foi visto, da sociedade de consumidores.
Percebe-se, de tal modo, que o crescimento populacional, o consumismo e a tecnologia são vetores proporcionais aos danos ambientais.
Como visto, atingiu-se 7 (sete) bilhões de habitantes em 2011, e a estimativa é que esse número cresça para 8 (oito) ou 9 (nove) bilhões de pessoas no ano de 2050.
Se atualmente “o mundo produz, [...] em menos de duas semanas, o equivalente a tudo o que foi produzido no ano de 1900”, vez que a produção econômica “dobra aproximadamente a cada 25 ou 30 anos”, no começo do próximo século, haverá uma pressão nos “limites biosféricos e mesmo a capacidade do planeta de manter a vida”, em razão do aumento populacional e da necessidade de uma maior produção para atender este exponencial crescimento de habitantes.
Assim, explica Gilberto Dupas:
O inevitável aumento populacional projetado para os próximos cinquenta anos exigirá muito mais recursos terrestres, mesmo mantidos os atuais níveis de renda e suas imensas disparidades entre países. Esse aumento populacional, eventualmente adicionado a alguma melhora de condições de vida, terá impactos profundos na agricultura. Mais comida será consumida, o que exigirá expansão das plantações, elevação do consumo de água e da degradação do solo, acompanhada de mais destruição de florestas e da biodiversidade. Numa escala global, apenas 10 a 20% das reservas de água renováveis são consumidas. Mas a água é distribuída de forma bastante irregular no globo. As previsões do Departamento de Economia e Assuntos Sociais da ONU são de que o nível de consumo insustentável e as dificuldades de transporte irão fazer que metade da população sofra com escassez de água em 2025. O crescente uso dos recursos hídricos tem prejudicado todo tipo de ecossistemas de água doce. Estima-se que a metade dos mangues mundiais tenha sido perdida e que cerca de 20% das 10 mil espécies conhecidas de água doce tenham sido extintas ou estejam ameaçadas.
Há de se observar, também, que os recursos naturais são limitados e alguns não são possíveis de serem renováveis, e mesmo diante da inexistência da sociedade de consumidores com seu excesso e desperdício, não haveria recursos suficientes para abastecer todos os habitantes da Terra de modo uniforme.
E ainda, complementa Susan George:
[...] com oito ou doze bilhões de habitantes na terra, não poderemos impedir um desflorestamento gigantesco, a destruição do hábitat de numerosas espécies, a proliferação em excesso, cidades sem condições de vida e poluídas, a morte de lagos e a morte dos mares causada pelos dejetos industriais e humanos; tudo isso se propagará intensamente por uma população em crescimento constante, até que todos os recursos do planeta estejam devastados e esgotados.
A partir daí, observa-se a problemática do aumento populacional com a era do consumismo. O mundo já carece de recursos para manter a todos uma qualidade de vida razoável, e cada vez mais, o que se vê é o lixo desnecessário, e o desperdício. E, para se ter ideia da dimensão do problema, seriam necessários 3 (três) planetas Terra com seus recursos naturais para atingir o padrão de vida média global atual nos moldes do padrão de vida médio europeu e norte-americano, em caso da verificação desse acréscimo populacional de 2 (dois) bilhões de pessoas.
Além disso, a tecnologia, com seus avanços em escala mundial permitidos pela nova lógica de produção global consumidora, tornou-se outro vetor problemático ao meio-ambiente.
Não é de hoje que existe mudança climática e extinção de espécies, já que fazem parte da história do nosso planeta, “mas, pela primeira vez, essas alterações têm sido aceleradas tão direta e drasticamente pela ação humana”, e muito mais rapidamente “do que muitos cientistas e alguns governos pensavam que fosse possível”.
A rápida fabricação de bens de consumo, com baixo custo e sem preocupação com danos ambientais, permitida pelas inovações tecnológicas e visando tão somente a lucratividade, aumenta a probabilidade de morte da nossa espécie, ou de nosso planeta. Soma-se a isto, a era do hiperconsumismo já analisada, que culminou com a expansão de automóveis e equipamentos eletrônicos, e consequentemente, o lixo:
Vivemos a era do hiperconsumo, o reinado da mercadoria efêmera, o ápice do hedonismo, a vontade individual de viver, sem horizontes. Tudo isso multiplicado por cada membro da família, como a época é de “cada um com seus objetos”. Aumentou ainda mais com a expansão dos equipamentos eletrônicos, celulares e similares. A era do hiperconsumidor e do pluriequipamento. Mais de 5 bilhões de celulares, cerca de 245 milhões de computadores vendidos anualmente no mundo, 20 mil aviões e 10 mil navios circulando pelo globo, com 3 bilhões de passageiros aéreos. Além de 62 milhões de carros, já passamos de 1 bilhão em termos mundiais, 50 milhões de toneladas de papel, 240 milhões de toneladas de plástico e mais de 1 bilhão de toneladas de aço. (Tubino, Najar)
Esta rápida e crescente industrialização de bens de consumo, permitida pela tecnologia e ocasionada pela demanda da sociedade de consumidores, fez aumentar, também, a poluição, originando o efeito estufa.
Com relação a este efeito, Gilberto Dupas argumenta que “a temperatura média global poderia subir de 1,5 a 6ºC nos próximos cem anos”, elevando-se, com isso, “o nível dos oceanos de 15 a 94 cm, colocando a possível necessidade de se remover mais de 90 milhões de pessoas, principalmente as que vivem em cidades banhadas pelo Pacífico”.
Além disso, em razão de todos estes vetores (aumento populacional, tecnologia e consumo), são previstas a diminuição das terras férteis e a salinização das fontes de água doce. É o que sustenta Gilberto Dupas:
[...] pode ocorrer a perda de terras férteis e a salinização de fontes de água doce. O próprio Banco Mundial, em relatório de 2003, reconheceu que nenhum desses padrões ambientais atuais é consistente com crescimento auto-sustentado mundial. Cerca de 2 bilhões de hectares do planeta, quase um quarto das terras cultiváveis, estão degradados; e o custo para reverter a degradação é muito alto. [...] cerca de 90% da água dos países em desenvolvimento já precisa ser tratada para se tornar potável. Na Europa e nos Estados Unidos, por volta de 50% dos lagos e rios estão gravemente poluídos.
Essas tensões ecológicas, possivelmente, levarão à instabilidade política e a conflitos armados por comida e água, demonstrando-se, assim, uma visão catastrófica do futuro de nosso planeta.
Os avanços tecnológicos poderão retardar esse processo, e vir a ser um fator de diminuição dos danos ambientais. Entretanto, este lado, além de não fazer parte da estratégia e dos interesses do mercado capitalista, também não garante a efetiva redução do impacto total da degradação no planeta.
A natureza é, hoje e amanhã, o maior obstáculo de todos, inclusive do próprio sistema de mercado aberto, e ela não pode ser tratada como se fosse um adversário, vez que devemos “proteger ou perecer”.
Assim sendo, é inegável que a espécie humana está ameaçada. Percorre-se a última hora do relógio contra o tempo, contra a extinção do planeta. Os recursos naturais estão se esgotando. Uma próxima guerra por alimentos e por água está na iminência de acontecer. As catástrofes naturais estão mais recentes e tendem a aumentar com a mudança climática, acelerada pela sociedade de consumidores. Tenta-se encontrar uma solução, mas o que se verifica é o que ninguém realmente quer afirmar: é improvável, hoje, que o mundo não morra.

3 O infundado desenvolvimento sustentável

Admitindo a impossibilidade de troca de modelo econômico, e os males que o atual capitalismo globalizado provoca sobre o meio ambiente, cientistas e autoridades verificaram a necessidade de criação de um projeto que ostentasse o desenvolvimento socioeconômico com o mínimo de dano à natureza.
Esta preocupação com a preservação do meio ambiente e com a equidade intergeracional, cominada com a tentativa de melhoria das condições socioeconômicas da população, fez, então, surgir o conceito de ecodesenvolvimento, que posteriormente foi substituído pelo de desenvolvimento sustentável.
Em 1987, a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento elaborou um relatório (Relatório Brundtland) que demonstrou a incompatibilidade entre o modo de produção e consumo vigentes na época e um desenvolvimento sustentável, conceituando-o e apontando estratégias na tentativa de consolidar uma equidade intra e intergeracional.
De acordo com este documento, “o desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. Em essência, significa dizer que se trata de um processo de mudanças, de mentalidade e conscientização, sobre a exploração dos recursos naturais e o emprego orientado da tecnologia para atender às necessidades e pretensões humanas, sem, contudo, interferir no crescimento econômico.
Entretanto, esta tese de desenvolvimento sustentável é contraditória e fantasiosa na ideia básica de “produzir mais com menos”, eis que aceita, imperativamente, a sociedade de consumidores e dispõe que a tecnologia será capaz de produzir mais com menos recursos. Tanto é ilusória, que até o próprio Gro Brundtland, presidente da comissão da ONU que organizou o relatório, está hoje pessimista.
Primeiro que as pretensões humanas estão viciadas e cegas pela sociedade de consumo. Não há como mudar o pensamento de quem tem o real poder econômico. Essas utopias, de desenvolvimento sustentável e tecnologia “verde”, não consideram a política e os interesses já enraizados na sociedade consumidora.
As grandes empresas multinacionais não vão parar de poluir e produzir lixo, vez que custa muito caro e influi diretamente no seu índice de lucratividade como gasto desnecessário. Assim, explica Susan George:
[...] a tentativa de abandonar rápida e maciçamente as economias baseadas em combustíveis fósseis, na química, no aço e assim por diante provoca hostilidade e retaliação por parte das indústrias envolvidas, reação perfeitamente normal. Para elas, é mais lucrativo e conveniente lidar com aquilo que já conhecem, desenvolveram e amortizaram, do que se lançar em novos caminhos.
E segundo, porque a tecnologia “limpa” ainda é muito cara, pois é utilizada e vendida como sendo uma própria mercadoria, dentro da sociedade de consumidores, não permitindo, portanto, sua incorporação plena nas indústrias.
O desenvolvimento sustentável surgiu, então, como uma alucinação proposta para acalmar os ânimos dos ambientalistas, e, consequentemente, como estratégia de marketing das empresas. Estas aderiram ao movimento sustentável tão somente para apaziguar as críticas sociais, e não para, efetivamente, diminuir o dano ambiental.
Neste sentido, leciona Gilberto Dupas:
[...] As questões de legitimidade decorrentes da progressiva concentração de poder das grandes corporações, que passaram mais facilmente a ser identificadas como causadoras de poluição ou danos ambientais, desencadearam amplo apoio de empresários ao “princípio do desenvolvimento sustentável” como forma de amenizar as críticas sociais. Os anos 90 corresponderam ao auge desse movimento e a adesão das corporações foi razoavelmente proporcional a sua exposição à questão; ou seja, quando mais potencialmente poluidor o setor, mais interesse ele tem em ações paliativas e mercadológicas para a amenização das críticas.
Veja-se, ainda, que este sufrágio ao desenvolvimento sustentável pelas grandes corporações é, também, uma camuflagem, vez que estas terceirizam suas atividades poluidoras com parceiros longínquos, em países pobres, “afastando para longe da imagem da empresa líder da cadeira produtiva as responsabilidades diretas pelos danos ambientais”.
Também, não há como propagar uma sustentabilidade social (outra dimensão do desenvolvimento sustentável) com objetivos de atender as necessidades da presente geração e alcançar a equidade intrageracional.
No moderno sistema produtor de mercadorias (inclusive produtor do próprio consumidor), a tecnologia e as sementes melhoradas não vão ser disseminadas para todos, pois são caras e apenas os ricos terão acesso a elas. Desta forma, mesmo que se busque um aumento da produção com menos recursos naturais, as tecnologias mais caras produzirão gêneros mais caros, ocasionando uma maior desigualdade social, ou seja, os países mais ricos continuarão a vender seus produtos a um preço muito maior que os mais pobres, pela simples razão do valor da tecnologia utilizada, que é, hoje, também considerada uma mercadoria lucrativa.
De tal modo, argumenta Gilberto Montibeller Filho:
[...] numa economia capitalizada, a produção é feita mediante o uso de tecnologias industriais, elevado consumo energético e de materiais. A produtividade é superior, mas conseguida artificialmente. Aqui a tecnologia é altamente valorizada. Ela utiliza grande quantidade de insumos energéticos e materiais (porque estes são subvalorizados, como vimos). Quanto maior a produtividade, obtida artificialmente, neste sistema, maior a vantagem para quem a conseguiu, sobretudo enquanto for o único ou um dos poucos a superar a média social [...]. O mercado valoriza a tecnologia de domínio privado; e não a disseminada coletivamente.
Portanto, a questão socioambiental, numa sociedade marcada pelo consumo desenfreado e pela alta competitividade das empresas, nunca será a prioridade maior dos interesses mundiais, não sendo possível, desta forma, colocar o desenvolvimento sustentável como um pilar de defesa do futuro de nosso planeta.
Se existe uma solução para os efeitos do capitalismo globalizado e da sociedade de consumidores, com certeza não é a do caminho ambientalista moralista conhecido e defendido por todos. O mundo não será salvo nem se reduzissem, amanhã, o consumo de energia pela metade. Mas, vale ressaltar o que Susan George expõe:
Eu não estou sugerindo que os indivíduos não devam fazer todas as mudanças que puderem, mas eles não devem nutrir quaisquer ilusões de que o comportamento pessoal, ainda que virtuoso quanto à emissão de dióxido de carbono, possa fazer diferença. Os maiores destruidores não vão desistir e medidas voluntárias são ineficientes. A escala é o problema, e nossa tarefa é promover um quantitativo e qualitativo salto na ação ambiental, reconhecendo que grande pode ser não apenas bonito mas crucial, se pretendemos evitar o pior.
Talvez, seja necessária uma catástrofe mundial. Talvez, seja parte do funcionamento do planeta renovar seus recursos, inclusive renovar quem os habita. Ou ainda, nas palavras de Edgar Morín, proferidas na conferência Fronteiras do Pensamento em 2008, talvez, o mundo que morre é, simplesmente, um mundo que morre para que outro nasça.

Conclusão

O presente trabalho teve como objetivo analisar a viabilidade de um desenvolvimento sustentável numa sociedade marcada pelo consumismo desenfreado.
Buscou-se a demonstração de que a globalização econômica, permitida e fomentada pelo capitalismo, influenciou diretamente no aumento dos danos ambientais, vez que criou uma cultura do consumismo.
Mostrou-se, então, o panorama pessimista, porém realista, do presente e do futuro de nosso planeta, discorrendo-se sobre os vetores diretamente proporcionais aos danos ambientais, quais sejam, o aumento populacional, o consumismo e a tecnologia.
Por fim, demonstrou-se que o conceito e as estratégias do desenvolvimento sustentável proposto pelo Relatório Brundtland são contraditórios com o presente sistema produtor de consumidores, não havendo possibilidade de se alcançar uma equidade intra e intergeracional, tanto pelos interesses políticos e econômicos, quanto pela própria cultura do consumo, arreigadas no seio do capitalismo moderno.

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação de pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
DUPAS, Gilberto. O Mito do Progresso. São Paulo: UNESP, 2006.
G1. Mundo chega a 7 bilhões de pessoas; confira curiosidades e números. Disponível em: bilhoes-de-pessoas-confira-curiosidadesenumeros. Html>. Acesso em:23.02.2012.
GEORGE, Susan. Devemos pensar grande. Tradução de Katarina Peixoto. Carta Maior.
GEORGE, Susan. O Relatório Lugano. São Paulo: BOITEMPO, 2002. MONTIBELLER FILHO, Gilberto. O Mito do Desenvolvimento Sustentável: Meio ambiente e custos sociais no moderno sistema produtor de mercadorias. 2ª Edição. Florianópolis: Ed. Da UFSC, 2004.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Nosso Futuro Comum. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Ed. Da Fundação Getúlio Vargas, 1991.
RÚBIO, David Sanchez; FLORES, Joaquín Herrera; CARVALHO, Salo de (Org.). Direitos humanos e globalização. 2ª ed. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. 13ª ed. São Paulo: Record, 2006.
TUBINO, Najar. A Marcha dos Zumbis. Carta Maior.
Artigo de Eduardo Jacob Murakami. Advogado e consultor de empresas familiares e multinacionais. Pós-graduado em direito empresarial e dos negócios. Mestrando em direção estratégica de empresas familiares. Membro profissional do Family Firm Institute e Membro associado do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Advogado Sócio da Cavalieri, Lapolli & Murakami Advogados Associados.

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