Cotas aumentam dúvidas de candidatos do Sisu
As cotas para estudantes de escolas públicas nas
instituições federais estão gerando ainda mais dúvidas entre os
candidatos que tentam uma vaga pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu)
do Ministério da Educação. Como as notas de corte e a concorrência são
diferentes para cada grupo de disputa, os alunos estão indecisos sobre
qual opção devem marcar.
Anna Karolyne Martins de Mesquita, de 19 anos, se diz
“confusa”. “As vagas destinadas às cotas ainda são poucas, então, apesar
de já ter escolhido, nas duas opções, concorrer com elas, fico com medo
de não entrar devido a isso”, admite. A estudante quer estudar Direito
ou Administração. Nos dois casos que optou, a nota exigida dos cotistas é
menor.
O sistema, que distribui vagas a partir do Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem), permite que os candidatos confiram, a cada dia,
as notas mínimas de cada curso. Com base nessas informações, eles podem
avaliar onde têm mais chance de conseguir a vaga e alterar suas opções
até o último dia de inscrições (sexta-feira). Cada estudante deve
escolher dois cursos.
Além de ter concluído o ensino médio em escolas públicas
brasileiras, o futuro cotista pode escolher disputar as vagas destinadas
aos autodeclarados pardos, pretos ou indígenas que possuem renda
familiar mensal de até 1,5 salário mínimo per capita ou aos que têm as
mesmas características de raça, mas possuem rendimento maior. Vale
lembrar que, para se inscrever como cotista, o aluno não pode ter
cursado nenhum ano do ensino médio em escola particular (nem em casos de
supletivos).
Quem se encaixa em mais de um desses grupos tem de
escolher em qual deles deseja concorrer. Essas opções podem ser mexidas –
o aluno pode desistir das cotas, por exemplo, e optar pela ampla
concorrência em um dos cursos ou nos dois, desde que não sejam iguais,
na mesma instituição – até o fim das inscrições. É preciso traçar uma
estratégia.
Há cursos, como o de Medicina da Fundação Universidade
Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, em que a nota de corte
para os cotistas, nesta quarta-feira, estava mais alta do que a
concorrência geral. Para os egressos de escolas públicas que não são
pardos, negros ou indígenas e têm renda mais alta, era preciso ter nota
796,56 para conseguir uma das 4 vagas disponíveis. Na ampla
concorrência, onde há 77, a média caía para 794,52.
Para poucos
O número reduzido de vagas é um dos responsáveis por esse
fenômeno, segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. A lei
12.711, que instituiu as cotas, permitiu a reserva progressiva das
vagas. Nesse primeiro ano, as universidades tinham de, obrigatoriamente,
oferecer apenas 12,5% das suas vagas para o programa. Em quatro anos,
deve chegar a 50%.
Com muitos estudantes concorrendo a poucas vagas, a nota
tende a subir. Os melhores alunos das melhores escolas públicas sairão
na frente. “Nesse primeiro momento, o topo do ensino público tem um
desempenho muito próximo ao da ampla concorrência. O grande desafio é
instituir um programa ousado e corajoso para redefinir o ensino médio”,
afirmou.
Segundo levantamento feito pelo Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) com 20 cursos
(entre mais concorridos e menos), as notas de corte da ampla
concorrência são maiores na grande maioria (18), como Medicina e Direito
na Universidade Federal do Ceará (UFC) e na Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). Apenas Ciências Econômicas na UFC e Pedagogia na
Universidade Federal do Maranhão têm notas mínimas mais altas nos grupos
de cotistas.
Para ele, quando a totalidade das vagas para cotistas for
oferecida, a diferença entre as notas dos estudantes selecionados pelos
diferentes grupos tenderá a ser maior.
Regras
Além das inseguranças sobre qual a melhor estratégia a
adotar, diante do novo cenário do Sisu, os candidatos ainda têm dúvidas
sobre as regras de participação nos programas de cotas. Maiara de
Oliveira, de 17 anos, por exemplo, ainda não compreendeu se, optando
pelas cotas, mas tendo desempenho superior a um estudante que se
candidatou à ampla concorrência, ela tem chances de conseguir uma vaga
no curso pretendido.
O Ministério da Educação explicou, quando lançou o edital
do Sisu, que, até todas as vagas das cotas serem oferecidas pelas
instituições, os candidatos cotistas concorreriam no grupo de reserva de
vagas escolhido e na ampla concorrência. Isso por causa da quantidade
pequena de vagas nos grupos de ações afirmativas. Mas ainda há
dificuldades em compreender como isso ocorrerá.
O artigo 32 do edital do programa diz que “até que as
instituições de ensino implementem integralmente as reservas de vagas de
que trata a Lei no 12.711, de 2012, os estudantes que optarem por
concorrer às vagas reservadas e que não forem selecionados terão
assegurado o direito de concorrer às demais vagas nas convocações de
listas de espera”.
Isso significa, segundo o MEC, que os estudantes podem
alterar suas opções à vontade antes do fim das inscrições. Optar pelas
cotas ou não de acordo com suas possibilidades de aprovação. Mas, quando
o período terminar, o candidato vai concorrer às opções marcadas por
último.
Depois das duas primeiras chamadas, as instituições
receberão uma lista dos estudantes aprovados em todos os grupos, mas em
ordem de desempenho. Portanto, caso as vagas para cotas acabem, um
cotista com bom desempenho poderá sim ser chamado para uma vaga
destinada à ampla concorrência inicialmente.
Maiara, que quer cursar Biologia Marinha na UFRJ ou na
Universidade Federal Fluminense (UFF). “O processo de inscrição em si
não está confuso, a dúvida está nessa parte de cotas, que é nova no
Sisu. Esse sistema não foi completamente explicado, o que está
confundindo muita gente”, opina.
Saiba como se candidatar ao Sisu
O Sisu é um sistema criado pelo Ministério da Educação
para distribuir vagas de diferentes instituições públicas por meio das
notas do Enem. Na prática, ele funciona como um grande vestibular
nacional, com milhares de vagas em dezenas de universidades de todos os
Estados do Brasil. As instituições de ensino aderem ao sistema e colocam
nele quantas vagas quiserem.
Na primeira seleção de 2013, há 129.279 vagas disponíveis
em 3.751 de 101 instituições públicas. Pode se candidatar às vagas quem
participou do Enem este ano e ficou com nota superior a zero na
redação. No processo de inscrição, o candidato terá de apresentar o
número de inscrição e a senha do Enem 2012.
Os estudantes interessados em se candidatarem a uma das
vagas do Sisu devem optar por até dois cursos. No momento da inscrição, é
preciso especificar a ordem de preferência dos dois. Ao longo do
período de inscrições, o candidato pode alterar ou cancelar as opções
feitas quantas vezes quiser.
Caso não haja aprovados para preencher todas as vagas
destinadas a algum dos subgrupos criados a partir deste ano com as cotas
nas duas chamadas feitas pelo MEC, os postos remanescentes serão
oferecidos na lista de espera aos demais subgrupos, na seguinte ordem de
prioridade: primeiro, aos que têm a mesma faixa de renda, depois,
qualquer renda, priorizando os pretos, pardos e indígenas. Se, assim
mesmo, o preenchimento de vagas não for realizado, as vagas são
disponibilizadas aos demais candidatos.
A lista dos aprovados em primeira chamada será divulgada
no dia 14 de janeiro de 2013. As matrículas serão feitas nas
instituições nos dias 18, 21 e 22 de janeiro. A segunda chamada ocorrerá
no dia 28 de janeiro e as matrículas deverão ser feitas nos dias 1º, 4 e
5 de fevereiro. Os estudantes que não forem selecionados devem aderir à
lista de espera. As instituições convocam os candidatos às vagas
remanescentes a partir dela. O prazo de adesão vai de 28 de janeiro a 8
de fevereiro. Caso ainda haja vaga no curso de primeira opção, o
candidato será convocado pela instituição que tenha a vaga disponível.
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