Com prazo se esgotando Congresso não vota regras para FPE
O
Brasil caminha para mais uma daquelas situações institucionais difíceis
de descrever. O dia 31 de dezembro de 2012 se aproxima e o Congresso
Nacional ainda não votou novas regras para a distribuição do Fundo de
Participação dos Estados, hoje descritas na Lei Complementar 62/1989. A
norma já foi declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal em
2010, mas teve seus efeitos mantidos até o último dia deste ano, como
forma de dar tempo para que os parlamentares votassem novo texto.
A
lei complementar estabelece critérios para a divisão do FPE,
estabelecido pelo artigo 159 da Constituição Federal. A lei estabelece
que os estados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste devem ficar
com 85% do fundo, e as regiões Sul e Sudeste, com 15%. O cálculo do bolo
total do FPE é feito todo ano pelo Tribunal de Contas da União e
distribuído pelo Tesouro Nacional, que, no organograma administrativo
federal, é vinculado ao Ministério da Fazenda. O TCU leva em conta os
levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
para analisar a situação socioeconômica do país.
É nos critérios
socioeconômicos que o Supremo encontrou problemas. A Lei Complementar 62
estabeleceu critérios temporários, com base na situação econômica do
país na década de 1980. Não foram levadas em conta as transformações do
Brasil nos anos seguintes, como o crescimento acelerado de alguns
estados, mudanças na renda per capita de outros e transformações nas bases tributárias. Por isso, a corte entendeu que a lei é inconstitucional.
O
voto do relator, ministro Gilmar Mendes, afirma que a lei não observou o
estabelecido no artigo 161, inciso II, da Constituição, que obriga o
estabelecimento de critérios para o rateio de forma a manter “o
equilíbrio socioeconômico entre os estados”. A decisão do STF é que a
Lei Complementar já não conseguia mais manter esse equilíbrio e,
portanto, é inconstitucional. Dada a sua importância (há estados em que
quase 50% da renda provém do FPE), o Supremo decidiu que seus efeitos
ainda teriam duração de 36 meses — até o dia 31 de dezembro de 2012.
Sugestões
O Congresso, porém, ainda não votou tal texto. A impressão que ficou é que o assunto foi deixado para a última hora, mas a pauta foi tomada pelas discussões sobre a divisão dos royalties do petróleo e dos vetos presidenciais à lei recém-aprovada que tratou do assunto.
O Congresso, porém, ainda não votou tal texto. A impressão que ficou é que o assunto foi deixado para a última hora, mas a pauta foi tomada pelas discussões sobre a divisão dos royalties do petróleo e dos vetos presidenciais à lei recém-aprovada que tratou do assunto.
E não é que os senadores não soubessem o que fazer. Em junho de 2011, relatório
do Núcleo de Estudos e Pesquisas do Senado já alertava que "frente à
decisão do STF, o Congresso necessita aprovar novos critérios de rateio
do FPE até o final de 2012, sob pena de não haver amparo legal para a
realização das transferências". Tomar uma atitude, para o relatório, é
emergencial. O FPE representa 9% da receita líquida dos estados e
representa mais de 40% desse bolo no caso dos estados do Amapá, Roraima e
Acre.
O estudo afirma que a atual divisão, com estados do Norte,
Nordeste e Centro-Oeste de um lado e Sul e Sudeste de outro, "está
obsoleta". Isso porque a regra pressupõe que as primeiras três regiões
concentram estados com pior renda tributária e os dois últimos os
estados com a melhor, e "isso não é uma verdade absoluta".
A
proposta do Núcleo de Estudos do Senado é que se use "a forma mais
direta possível de se medir diferenças na capacidade fiscal: a distância
entre a receita de um estado e a média nacional". Ou seja, a fórmula de
rateio deve prever que o estado que arrecadou menos no exercício
anterior receba uma parcela maior do fundo. É o modelo, segundo o
documento do Senado, usado na Austrália e no Canadá "e a forma mais
direta de complementar a receita fiscal das unidades federadas com menor
capacidade de arrecadação".
Sem discussão
A base governista parece preocupada. No dia 19 de dezembro, o senador José Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado, adiantou à Agência Brasil que não haveria tempo para discutir a matéria ainda este ano. Ficaria para fevereiro de 2013, depois do recesso parlamentar, disse então.
A base governista parece preocupada. No dia 19 de dezembro, o senador José Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado, adiantou à Agência Brasil que não haveria tempo para discutir a matéria ainda este ano. Ficaria para fevereiro de 2013, depois do recesso parlamentar, disse então.
Diante do impasse, o senador Romero Jucá (PMDB-PR) declarou, também à Agência Brasil,
na quarta-feira (26/12), preferir a busca de uma solução entre o STF e o
TCU para a distribuição do Fundo de Participação dos Estados. Ele
afirmou que é um assunto que deve ser tratado pelos presidentes das duas
Casas Legislativas (Marco Maia pela Câmara e Sarney pelo Senado) com o
Supremo e com a corte de contas.
Em sessão da Comissão de Assuntos
Econômicos do Senado que discutia relatório de Everardo Maciel sobre o
pacto federativo, o senador Walter Pinheiro (PT-BA) disse que está
“fazendo as tratativas” para que o projeto de lei que trata da matéria
tramite em regime de urgência. Eduardo Braga, senador pelo PMDB do
Amazonas, declarou que tem mantido “contatos isolados” com ministros do
Supremo sobre o assunto. “Se não adotarem uma medida alternativa, os
estados e municípios terão problema”, disse na semana passada.
Ano que vem
A preocupação do governo é com 2013. As regras da repartição do FPE estão em vigor, mas a partir do dia 1º de janeiro de 2013 saem do ordenamento jurídico brasileiro. A fórmula do TCU foi calcular o FPE de acordo com as regras da lei de 1989 e aplicá-las ao ano que vem.
A preocupação do governo é com 2013. As regras da repartição do FPE estão em vigor, mas a partir do dia 1º de janeiro de 2013 saem do ordenamento jurídico brasileiro. A fórmula do TCU foi calcular o FPE de acordo com as regras da lei de 1989 e aplicá-las ao ano que vem.
De acordo com relatório
da Secretaria do Tesouro Nacional, “para o FPE, na falta de uma
definição em relação aos parâmetros de distribuição para 2013, foram
utilizados por enquanto os mesmos coeficientes de 2012”. O documento
toma por base o Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2013, que
estabelece o FPE em R$ 55 bilhões, 9% acima dos R$ 50,4 bilhões de 2012.
Em
Brasília, evita-se falar em crise institucional. A certeza é que o
Congresso está descumprindo uma decisão do Supremo Tribunal Federal,
escudando-se em cumprir a decisão do Tribunal de Contas da União. O TCU,
para todos os efeitos, usou critérios em vigor, deixando de lado o que
determinou o STF em 2010.
Na prática
Prever o que vai acontecer é um convite ao erro. Diante do quadro, o Supremo pode esticar o prazo para o Congresso votar nova lei. Mas até agora não o fez.
Prever o que vai acontecer é um convite ao erro. Diante do quadro, o Supremo pode esticar o prazo para o Congresso votar nova lei. Mas até agora não o fez.
O ministro Marco Aurélio, na discussão de
2010, foi contra dar os 36 meses para os parlamentares votarem outro
rateio para o FPE. Para ele, ou a lei é constitucional ou não é, e não
se pode decidir que ela tem um prazo para se tornar inconstitucional.
Ele
lembra dos mais de 3 mil vetos presidenciais que estão pendentes de
discussão pelo Legislativo, das mudanças no sistema do Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) — que o tornou
permanente até que se votassem novos dispositivos — ou ainda das Medidas
Provisórias, declaradas inconstitucionais em 2002, mas também a prazo.
“Sou um crítico dessa inapetência do Congresso”, resumiu Marco Aurélio
em conversa com a revista Consultor Jurídico.
Na
opinião do ministro, o Supremo poderia autuar o Congresso, “e o aspecto
político do descompasso seria suplantado”. Se não for cumprida a
decisão, analisa, o Congresso fica “desqualificado frente a opinião
pública, e isso é horrível”.
“É hora de o Congresso acordar e se
tornar admirado pelos cidadãos. É o que desejo para 2013. É uma casa em
que impera a política, é claro, mas não se pode ficar nessa letargia,
que revela um esquecimento, para falar o mínimo, quanto aos deveres.
Almejo o fortalecimento do Congresso para 2013, que cada qual compreenda
a responsabilidade que tem”, declarou Marco Aurélio.
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