Pirataria ou necessidade de consumo?


Publicado por Marcelo Barbosa
Os veículos de comunicação e entretenimento estão fazendo campanhas contra o consumo de produtos “piratas” ou alternativos, alegando que os que assim o fazem estão dando prejuízos às grandes gravadoras e indústrias de brinquedos, fonográficas, de programas de computadores, perfumarias, calçados e muitas outras de diversos setores. Esses mesmos veículos afirmam que ao consumirem produtos piratas impedem o crescimento de tais indústrias em território brasileiro e deixam de arrecadar impostos aos cofres públicos, mas a verdade não é bem essa. Primeiro: aqueles que consomem produtos alternativos jamais teriam condições de consumir um produto original, de qualidade e de “bom gosto”; segundo: esses produtos de qualidade superiores não foram criados e fabricados para atender a maioria maciça da população que não tem poder de compra. Essa prática terrorista cria nos mais pobres e honestos, consumidores de produtos alternativos, a sensação de que fazem algo ilícito e imoral.

O sistema capitalista gera e preserva as disparidades para se reproduzir, mantém dois circuitos na economia, um para atender ao mercado das “elites” que apresentam poder de compra impressionante, há lojas como a Daslu, que impressionavam pelo requinte e preço dos produtos ali comercializados. No Brasil apenas cerca de 25% do total da população têm condições de consumir tais produtos, os outros 75% consomem apenas a imagem dos produtos criados para mercados seletos e direcionados. Milton Santos chamava esse circuito produtivo (criado para atender aos que apresentam elevado poder de compra) de superior, visto que a sua qualidade e desempenho são de alta performance.
Para atingir o circuito superior contratam empresas de propagandas e marketing com a finalidade de criar em seu público a necessidade de consumir tais produtos. Comerciais são veiculados em todos os meios de comunicação, que penetram tanto nos lares dos mais abastados quanto daqueles que não são alvo de seus produtos. A população de baixo poder aquisitivo ao visualizar as belas imagens divulgadas e as vantagens de usar tal marca, ter tal produto, usar tal perfume, enfim ao ser bombardeado por tais “reclames” o indivíduo de baixo poder aquisitivo se sente na obrigação de consumir essas marcas da moda, direcionados ao circuito superior, seu salário não lhe dá possibilidades de consumi-lo, visto que o preço unitário desses produtos é muitas vezes superior ao seu salário, alguns se aventuram em crediários intermináveis, outros por não ter acesso a crédito são arremetidos a consumir os produtos pirateados ou alternativos.
Com a finalidade de abastecer esses mercados alternativos, criados pela propaganda do circuito superior, surge o circuito inferior fabricando produtos de baixa qualidade, copiando o desempenho dos produtos de “primeira linha”. O mercado informal exige produtos semelhantes aos daqueles criados para o circuito superior. Tanto as marcas alternativas quanto produtos copiados são a salvação daqueles que querem, mas não podem consumir os produtos que as imagens que são repetidas inúmeras vezes vendem. Dessa forma, surgem marcas como Mike, Rebley, Redbook, Panasoanic, Zew Balance, Zoomk, Abidas, Rangler e outras centenas de marcas. Essas marcas alternativas, que ao longe parecem originais, colocam aquele que a usa na moda e passando a ocupar posição de destaque no meio onde vive. Usar produtos que o mercado formal lança, também é necessidade forjada daqueles que não podem ter acesso a eles.
Para abastecer esse mercado menos exigente e maior numericamente que o do circuito superior, o mercado informal numericamente, em número de consumidores, é maior que o formal. Surgem os camelódromos, as feiras livres, os mercadinhos e vendedores ambulantes são os agentes de propagação dos produtos alternativos ou pirateados, são muitos deles desempregados do mercado formal que encontram na venda desses produtos sua sobrevivência e cumprem a função de abastecer o circuito inferior da economia.
Não adianta fazer campanhas contra os produtos piratas, enquanto perdurarem as grandes diferenças sociais em nosso país, o circuito que mais cresce é o inferior, pois o neoliberalismo cria mais desemprego que emprego, a necessidade de consumir mais é criada a todo instante, visto que são lançados no mercado inúmeros novos produtos todos os meses. A única forma de diminuir o consumo desses produtos alternativos é inserir os trabalhadores da economia informal e dos desempregados no mercado de trabalho formal e pagando melhores salários. Fazer campanhas anti-pirataria é contra producente visto que enquanto houver propaganda dos produtos para o circuito superior e direcionado para as elites, também a necessidade de consumir produtos alternativos será criada nos menos favorecidos que consomem os produtos do circuito inferior, uma vez que circuito inferior se aproveita das propagandas criadas e geradas para a população de alto poder aquisitivo para colocar seus produtos no mercado.
É da natureza humana consumir produtos que estejam na moda, mas como grande parte da população brasileira quer, mas não pode, consumir os produtos “originais” sobram aqueles de baixo valor e aqueles seus baixos salários podem comprar.
Criar empregos, melhorar os salários e tornar a carga tributária mais justa e democrática, são medidas urgentes, além de que, o Estado nos diversos níveis, devolva em benefícios aos cidadãos os valores captados de impostos e taxas. Fala-se tanto na inclusão social dos mais pobres, deve-se pensar na inclusão no poder de consumo de produtos de qualidade, só assim, com a população tendo bons salários e desde que os preços dos produtos sejam proporcionais aos seus ganhos, somente assim a pirataria e as marcas alternativas tenderiam a se tornar menos consumidas pela população de baixa renda, enquanto isso não acontecer às campanhas se tornam vazias e sem sentido.
Simplesmente baixar decretos e mandar a policia apreender os produtos que os “empresários do circuito inferior” vendem é praticar atentados extremistas contra aqueles que precisam sobreviver. A economia informal é uma alternativa encontrada pelos trabalhadores que não encontram empregos com carteira assinada, a economia informal movimenta boa parte do comercio praticado em nosso país e em nosso estado.

Marcelo de Barbosa Especialista em Gestão Ambiental Doutor em Ciências Sociais

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