Venezuela tem escassez de alimentos
Enquanto a incerteza política sobre a posse do presidente Hugo Chávez
para o novo mandato toma os dias na Venezuela, os supermercados do país
estão com as prateleiras vazias, e a população precisa mostrar
persistência para conseguir comprar os alimentos da cesta básica.
Há semanas, produtos como frango, arroz, leite, azeite, açúcar, papel
higiênico e farinha de milho desapareceram das prateleiras e são
comercializados com ágio por vendedores informais, ou sob racionamento,
mediante mostra de documento de identidade, em alguns estabelecimentos
comerciais.
Marlenis Rojas, de 50 anos, dona de casa, explica que, para encher a
despensa de seu lar - onde mora com a filha, o genro e a neta - demora
até quatro dias. "Faz algum tempo que não consigo fazer a compra
completa em um lugar ou em um dia, tenho de percorrer vários mercados
para poder encontrar coisas básicas como açúcar ou farinha", diz.
A Venezuela
viveu várias crises de escassez de alimentos nos últimos anos, sendo
uma das mais graves a registrada há três anos, quando não se encontrava
leite nem mesmo com ágio.
Marlenis diz que, para comprar farinha de milho, o alimento básico da
dieta venezuelana, teve de pedir a seus parentes em uma cidade do
interior, onde eles compraram de maneira racionada.
Ela afirma que, sem encontrar frango inteiro, tem de comprá-lo por
partes, pagando quase quatro vezes mais que o valor oficial estipulado
pelo governo. Ela compra azeite da marca da vez e racionado, e diz não
ter encontrado papel higiênico, sabão em pó, arroz e açúcar nos
supermercados nos últimos 15 dias.
De acordo com os preços oficiais, um quilo de frango devia custar na
Venezuela 17 bolívares (cerca de R$ 1,90), mas ele só é comercializado
em alguns lugares, por não menos que 35 Bs (R$ 4) por quilo. A venda
ocorre de maneira tão discreta e rápida que parece uma transação
ilícita. E não é qualquer um que compra: para conseguir um frango
inteiro, é preciso ser amigo ou cliente assíduo.

(Foto: Paula Ramón/G1)
Antonio González, de 36 anos, é encarregado de uma padaria e afirma
que, há oito meses, não recebeu um só carregamento completo de
alimentos. "Desistimos de vender azeite, açúcar, arroz ou farinha, quase
nunca chegam", diz.
Ele acrescenta que a produção de pão também está sendo afetada pela
escassez. A farinha de trigo é paga adiantada aos fornecedores, caso
contrário, o preço triplica. "Nessas condições, é impossível cumprir os
preços fixados pelo governo para a venda dos produtos", afirma.
A Fedecámaras, federação empresarial do país, insistiu, em meados de
dezembro, na necessidade de flexibilizar a entrega de divisas para que o
setor possa abastecer a demanda nacional.
O controle de câmbio está em vigência desde 2003, e fixa o preço do
dólar a 4,3 Bs (R$ 0,50), enquanto que no mercado paralelo a cotação
terminou a semana passada em 17,7 Bs (R$ 2,02).
A consultoria Ecoanalítica afirma, em seu último informe sobre o tema,
que o sistema cambial de divisas "não só controla a quem, quanto e por
quanto entregar, mas também que o setor público pode competir com o
setor privado com claras vantagens cambiais, já que pode dispor na
prática das divisas que deseje, com a taxa mais baixa disponível na
economia".
Nesta semana, a crise alimentar ocupou mais espaço nos meios de
comunicação locais que a crise política. Assim, a especulação de preços
teve mais atenção que a especulação sobre a saúde do presidente Chávez e
os cenários jurídicos para o 10 de janeiro, dia da posse dele para seu
novo mandato.
Jorge Botti, presidente da Fedecámaras, afirmou que é "natural"
registrar desabastecimento no começo do ano, mas disse que em 2013 o
impacto na população foi maior porque, nos últimos quatro meses, o
pequeno ingresso de divisas "manteve ameaçados os estoques de produtos".
Um porta-voz do Partido Socialista Unido de Venezuela (PSUV), o partido
do governo, que pediu anonimato, explicou que o fator eleitoral também
incidiu na atual escassez.
"As eleições regionais, celebradas em 16 de dezembro, tiveram seu papel", disse.
O dirigente para o estado de Zulia, segundo maior do país e bastião da
oposição até a eleição passada, disse que durante a campanha eleitoral a
entrega de alimentos nas zonas pobre foi constante, o que exigiu a
compra e o envio de quantidades extraordinárias de produtos da cesta
básica.
"As pessoas que acreditam em Chávez não identificam a escassez com o
presidente, pelo contrário, nas redes do governo, onde eles podem se
abastecer, somos nós que levamos alimentos ao povo. Para a população que
acompanha o processo, a escassez dos produtos e a especulação são
coisas dos empresários", disse.

(Foto: Paula Ramón/G1)
Nesta semana, o vice-presidente Nicolás Maduro, herdeiro político de
Chávez, começou uma rodada de encontros com representantes do setor de
alimentos no país.
A posição do Executivo é não permitir especulação e retenção de estoques, e foi anunciado um plano nacional de fiscalização.
Outras medidas, como o envio de pessoal da Guarda Nacional aos
depósitos de açúcar do país para garantir o envio do produto, também
foram aprovadas.
Maduro assegurou que há reservas de alimentos para três meses e pediu à
população que não faça "compras nervosas". Enquanto isso, a farinha de
milho, reculada a 4,30 Bs (R$ 0,50), é vendida a 17 ou 20 (R$ 1,90 a R$
2,30) nas ruas.
Produtos de higiene pessoal, como sabonete, papel higiênico ou pasta de
dentes, também escasseiam e só são vendidos sob esquema de racionamento
- dois ou três por pessoa -, e para comprar é necessário apresentar o
documento de identidade.
Peças para carros e produtos médicos também faltam com frequência no
país. No começo deste ano, algumas lojas internacionais de roupas também
tinham estantes vazias.

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