Deputados discutem com Ministério da Justiça novas regras para demarcação de terras indígenas
Integrantes
das comissões de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da
Amazônia e de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento
Rural e da Frente Parlamentar da Agropecuária se reúnem nesta
quinta-feira (11) com técnicos do Ministério da Justiça para discutir a
formulação de novas regras para a demarcação de terras indígenas.
Na
semana passada, os parlamentares das comissões se reuniram com o
ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para reivindicar novas regras
para a demarcação.
O
grupo quer que todos os processos de demarcação de terras indígenas
sejam suspensos enquanto as novas regras são formuladas. A ideia do
grupo também é se reunir na próxima semana com o procurador-geral da
República, Roberto Gurgel, para negociar essa possibilidade.
Para
o presidente da Comissão de Integração Nacional, deputado Jerônimo
Goergen (PP-RS), o processo de demarcação de terras indígenas hoje é
injusto com o produtor rural. “O proprietário não tem mais segurança
jurídica nenhuma da garantia da sua propriedade”, disse. Segundo ele, o
proprietário rural não tem possibilidade de se defender no processo de
demarcação.
Processo hoje
Hoje,
o processo de demarcação de terras indígenas é regulado por um decreto
que segue o que diz a Constituição: as áreas tradicionalmente ocupadas
pelos índios são propriedade da União e destinam-se à posse permanente
das comunidades indígenas.
Diversas
áreas reivindicadas pelos índios são, porém, propriedade de fazendeiros
locais, que contam com os títulos legais das terras, o que tem gerado
conflitos.
É
o caso das terras dos índios da etnia guarani-kaiowá, na região sul do
Mato Grosso do Sul. Uma ameaça de suicídio coletivo de 170 índios que
vivem acampados na região chamou a atenção mundial para o problema da
demarcação de terras indígenas no Brasil.
A
demarcação das terras indígenas depende de laudo antropológico e
manifestação de todos os envolvidos - estados, municípios, produtores e
os índios, mas a palavra final sobre a demarcação está a cargo do Poder
Executivo.
Pressão ruralista
O
coordenador da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas, Renato
Tupiniquim, acredita que parlamentares estão tentando retirar o direito
dos povos indígenas à sua terra. “O problema dos povos indígenas hoje
são as bancadas ruralistas e evangélicas, que estão se unindo, fazendo
PECs, portarias, por exemplo a Portaria 303/12, a PEC 215/00 e a PEC
38/99”, disse. “Hoje a demarcação de terras não avança, porque tem a
bancada ruralista fica pressionando o ministro da Justiça para parar”,
completou.
A
Proposta de Emenda à Constituição 215/00 transfere do Poder Executivo
para o Congresso Nacional a atribuição de determinar as áreas que
deverão ser reservadas às terras indígenas. A admissibilidade da PEC já
foi aprovada, e agora deverá ser constituída uma comissão especial para
analisar a proposta. Já a PEC 38/99, em análise no Senado, propõe
transferir ao Senado da República a competência de aprovar a demarcação
das terras indígenas.
A
Portaria 303/12, da Advocacia-Geral da União (AGU), por sua vez,
estendeu para todos os processos de demarcação de terras indígenas as 19
condicionantes adotadas no reconhecimento da aldeia Raposa Serra do
Sol, em Roraima. A
portaria autoriza o governo a construir rodovias, hidrelétricas, linhas
de transmissão de energia e instalações militares dentro das aldeias
sem autorização das comunidades indígenas. O texto também veta a
ampliação de terras demarcadas. Após críticas, o texto acabou suspenso
pela própria AGU até o pronunciamento definitivo do Supremo Tribunal
Federal (STF) sobre o caso.
De
acordo com o deputado Jerônimo Goergen, o grupo de parlamentares também
quer que o STF julgue rapidamente a ação que envolve a demarcação da
aldeia Raposa Serra do Sol. Além disso, o grupo quer que todas as
condicionantes adotadas nesse processo sirvam de parâmetro para outras
demarcações, tal qual disposto na Portaria 303/12.
Parlamentares
da Comissão de Integração Nacional visitarão a aldeia entre os dias 14 e
16 deste mês. “Queremos conhecer in loco como fica uma área que foi
demarcada e quais são as consequências socioeconômicas de uma decisão
desta”, explicou o presidente da comissão.
Fonte: Câmara dos Deputados Federais
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