Reforma política: partidos ainda não têm acordo sobre pontos que serão votados
A
proposta de reforma política, que será votada na próxima semana, não
tem acordo entre os líderes partidários quanto à forma nem ao conteúdo.
Depois de debater o tema por meses em comissão especial, deputados e
partidos não conseguiram fechar uma proposta mínima consensual. Os
líderes têm dúvidas sobre a possibilidade de aprovação dos itens do
relatório elaborado pelo deputado Henrique Fontana (PT-RS).
O
texto é centrado no financiamento público exclusivo de campanha, mas é
possível que um item que não consta do relatório - a janela para troca
de partidos - ganhe força e se sobreponha aos demais.
Os trechos divulgados do relatório que serão colocados em votação são:
financiamento público exclusivo de campanha;
fim
das coligações para eleições proporcionais, porém permitindo que os
partidos façam federações partidárias que durariam, no mínimo, quatro
anos;
coincidência das eleições (municipais, estaduais e federais);
ampliação
da participação da sociedade na apresentação de projetos de iniciativa
popular, inclusive por meio da internet. Pela medida, 500 mil
assinaturas garantiriam a apresentação de um projeto de lei; e 1,5
milhão, de proposta de emenda à Constituição (PEC);
nova
opção de lista flexível, em que o eleitor continuaria votando no
deputado ou no partido, mas só o voto na legenda é que reforçaria a
lista apresentada pelo partido.
Duas
propostas de emenda à Constituição (PECs 10/95 e 3/99) e um projeto de
lei (1538/07) deverão nortear a discussão. Para Fontana, a votação
deverá começar pelo projeto, que inclui o financiamento público
exclusivo de campanha. Há pressão, no entanto, para iniciar a votação
pelas PECs, que versam sobre o fim das coligações e a coincidência das
eleições.
Polêmica
“Se
a votação começar pelo projeto, o PMDB não vai aceitar”, afirmou o
líder do partido, deputado Eduardo Cunha (RJ), um dos maiores opositores
ao relatório na comissão especial da reforma política.
“O
projeto [de lei] não tem nada que possa ser aproveitado, o
financiamento público de campanha não tem nenhum apelo da sociedade”,
acrescentou. “Queremos votar o fim das coligações proporcionais, a
coincidência das eleições e, se possível, o distritão”, acrescentou.
O
chamado distritão foi um modelo apresentado pelo PMDB que transforma as
eleições proporcionais para deputados e vereadores em majoritárias, nas
quais os candidatos mais votados seriam eleitos.
Coligações
Começar
a votação pelo fim das coligações, por sua vez, é algo que não tem o
apoio dos partidos menores, que muitas vezes dependem dessa associação
para conseguirem cadeiras no Parlamento.
O
líder do PSB, deputado Beto Albuquerque (RS), afirmou que vai se opor à
reforma caso esse assunto não seja retirado. “Há algo embutido [na
reforma] que discordamos plenamente, fim das coligações para a
proporcional, que é algo que interessa aos grandes partidos”, declarou.
“Há
um movimento dos grandes partidos para votar isso e, ao mesmo tempo, a
janela para a troca de partidos. Isso será uma afronta à livre
organização partidária”, acrescentou Albuquerque.
Na
mesma linha contrária ao fim das coligações proporcionais, o líder do
PP, deputado Arthur Lira (AL), declarou que, se o tema tiver prioridade,
o partido “criará dificuldades para a tramitação da matéria”.
Segundo
Lira, o ideal seria começar a votação pelas PECs, que necessitam de
quórum qualificado. Seu partido também defende a adoção do “distritão” e
a coincidência das eleições.
Compra de votos
Já
o líder do DEM, deputado Ronaldo Caiado (GO), que foi relator de uma
proposta de reforma política na legislatura passada, criticou o fato de o
relatório do deputado Henrique Fontana (PT-RS) ser levado a Plenário
sem ter sido aprovado na comissão especial responsável pela matéria.
Caiado
também classificou como o “pior dos mundos” a combinação entre o
financiamento público exclusivo de campanhas e a adoção da lista
flexível para a escolha de deputados e vereadores, medidas previstas nos
substitutivos de Fontana.
Para
Caiado, que defende a adoção de listas fechadas, qualquer proposta de
reforma política deveria buscar “romper a tradição brasileira de compra
de votos” e fazer com que os candidatos passem a disputar os votos no
seu partido.
Caiado: reforma política deveria romper a tradição brasileira de compra de votos.
“Se
é dada essa alternativa [de o eleitor escolher diretamente seu
candidato proporcional], o candidato continuará pedindo votos para o
eleitor, mantendo todos os defeitos do sistema atual, como compra de
votos, boca de urna, caixa dois”, declarou. “Caso não criemos um sistema
que quebre a cultura da compra do voto, estaremos fazendo meias
reformas, sutura em tecido roto”, acrescentou.
Caiado
também criticou a possibilidade de Fontana aumentar o rigor para
partidos se unirem nas eleições proporcionais por meio da Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) 10/95, que trata da adoção do voto distrital
misto.
“Isso
é uma esperteza que não tem base regimental, porque hoje a coligação é
uma norma constitucional que não pode ser mudada por meio de emenda
aglutinativa, como quer Fontana”, argumentou.
Voto da maioria
O
relator da reforma política, Henrique Fontana, espera que o debate se
estenda por até três semanas. Ele acredita, no entanto, que a maioria
deve ditar as novas regras do jogo político.
As
negociações estão intensas. Estamos tentando produzir os últimos
acordos possíveis, mas na expectativa de que, no voto em Plenário, por
maioria, se decidam esses cinco pontos fundamentais que estamos propondo
como a pauta possível de votação neste momento, disse Fontana.
Fonte: Câmara dos Deputados Federais
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