Crise pode tirar poder da Funai sobre demarcação
Sob
pressão dos produtores - e mesmo de correligionários, como o senador
Delcídio Amaral (PT-MS), o governo tenta conter a crise deflagrada com
as sucessivas invasões de fazendas produtivas por indígenas, em diversos
pontos do país, formando um colegiado que retirará a exclusividade da
Funai na demarcação das terras.
Essa
nova instância deverá ser integrada por representantes dos ministérios
da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário e das Cidades, mais a
Embrapa, que terão como primeira missão auxiliar a Casa Civil a
concluir, até o final do mês, um estudo preliminar para um novo modelo
de demarcação das terras indigenas.
A
crise é aberta agora, depois da operação de reintegração de posse em
fazenda do Mato Grosso do Sul, na última quinta-feira, que resultou na
morte do índio terena Oziela Gabriel - não se sabe ainda se vítima de
tiros disparados pela Polícia Militar ou pelos próprios índios, conforme
admite a própria Funai.
É
uma medida destinada a esfriar os ânimos dos produtores que acusam a
Funai de patrocinar as invasões para acelerar projeto paralelo de
extensão das areas indigenas, à revelia das decisões judiciais em contrário. De
um lado restritos por normas ambientalistas e, de outro, pela pressão
da Funai, os produtores cobram ao governo autoridade sobre esta última,
impondo a paralisação de suas ações até o pronunciamento do Supremo
Tribunal federal sobre a questão.
“É
mais do que hora de o governo federal suspender o processo de
demarcação de terras indígenas, conduzido de modo arbitrário, e
frequentemente ilegal, pela Funai, e aguardar que o Supremo Tribunal
Federal estabeleça em definitivo o regime jurídico de demarcações de
terras indígenas no país”, diz nota oficial da CNA.
A
confederação, presidida pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO), lembra que
já havia advertido setores do governo para o risco de uma tragédia.
Atribui o acirramento dos ânimos à “notória política de confronto” que
seria promovida “pela Funai e ONGs aliadas ao CIMI (Conselho Missionário Indigenista)”.
“Fazem
dos índios, que dizem defender, massa de manobra de uma luta
ideológica, que leva insegurança jurídica ao setor produtivo,
responsável por 25% do PIB”, diz a entidade.
Produtores
rurais de todo o País, preparam paralisações de rodovias e prometem
lutar por uma CPI da Funai e pela demissão da presidente do órgão, Marta
Azevedo, se o governo não apresentar solução efetiva para os conflitos
num prazo razoável.
Interlocução
Os
produtores cobram não só a intervenção do Estado, mas também um
interlocutor do governo com conhecimento da causa, para discutir
soluções. Na última terça, parlamentares do Mato Grosso do Sul saíram
frustrados de uma rodada de reuniões com a Casa Civil e a
vice-presidência da República.
Expuseram
o clima de tensão na região, pediram que a suspensão das demarcações
fosse estendida ao Estado e reivindicaram a demissão da presidente da
Funai, Marta Azevedo. Dois dias depois, o índio terena seria morto
durante a reintegração de posse de uma fazenda no Estado.
“As
soluções existem, falta decisão política”, afirma o senador Delcídio
Amaral (PT-MS), que participou das conversas com a ministra-chefe da
Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e o vice-presidente Michel Temer. Ele
lembra que há anos os produtores rurais alertam o governo para a
evolução do problema e afirma que o que aconteceu “não foi por falta de
aviso”.
Paralisação e CPI
A
Frente Parlamentar da Agricultura prepara uma paralisação nacional de
portos e rodovias em todo o País no próximo dia 14, para chamar a
atenção para o problema diante da inação do governo federal, confirma o
deputado Nilson Leitão (PSDB-MS).
Presidente
da subcomissão de demarcação de terras indígenas da Câmara, Leitão
também prepara uma caravana pelo País para conferir in loco as novas
reservas. Há visitas agendadas à região da usina de Belo Monte, no Pará,
no próximo dia 17, e a Passo Fundo (RS) no dia 20 - dois focos de
tensão. “Se o governo não age, nós vamos tentar apontar o melhor formato
para as demarcações”, diz Leitão.
A
bancada ruralista, a maior do Congresso, com mais de uma centena de
parlamentares, também promete intensificar a pressão sobre o presidente
da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para que instale a CPI. Com
a morte do índio Oziel Gabriel na quinta-feira, a presidente Dilma. A
movimentação pode desaguar na tramitação, com efetivas chances de
aprovação, da proposta que transfere ao Congresso a decisão sobre a
demarcação de terras.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
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