Patrimônio histórico de Santarém ameaçado



Por: Pe. Sidney Augusto Canto (*)
Acompanhando as manifestações pelo Brasil que tem ocorrido nos últimos dias, vi que muitas pessoas se manifestaram a favor das referidas manifestações, mas contra a destruição ou depredação do patrimônio público e, principalmente, quando afetam o patrimônio histórico e artístico de algumas capitais. De fato, é muito triste ver algo que nos remete ao passado histórico, seja do nosso país, estado ou cidade, ser depredado por quem às vezes desconhece a contribuição que este passado nos deu para que hoje possamos, inclusive, ir para as ruas nos manifestar... Infelizmente, não são somente grupos isolados de manifestantes que depredam o patrimônio histórico.



Outro dia, passando pelo centro da cidade, deparei-me com mais um “tapume” colocado sobre a fachada de uma das antigas casas da nossa cidade de Santarém... Quando tirarem o “tapume” uma nova casa, possivelmente destinada ao comércio, será vista pelos transeuntes que nem sequer lembrarão do que lá havia antes. Algumas vozes até se levantam, mas são abafadas ou ignoradas. Afinal de contas, a quem importa um prédio velho?

Infelizmente, a cada dia, nosso patrimônio histórico tem sido destruído por conta da falta de consciência e da ganancia de algumas pessoas. Se fosse na Europa, isso seria um crime quase hediondo, mas no Brasil, e especificamente em Santarém, ninguém parece temer nada. Passar a picareta em cima do passado e sepultá-lo com concreto é o que mais comumente podemos ver.

Algumas pessoas usam de uma tática simples e sórdida de destelhar ou provocar infiltrações e ação das intempéries para que a destruição seja feita pelo meio natural. Triste, mas real. Há exceções, é bem verdade, mas elas são poucas. Infelizmente o capital e a busca pelo lucro falam mais alto que a história do patrimônio deixado pelos nossos antepassados.


Isso sem falar do patrimônio documental e imaterial que pouco a pouco vamos perdendo. Em nossas reuniões do Instituto Histórico temos debatido esse tema frequentemente. Uma comissão já foi formada para, em conjunto com a UFOPA e futuramente com o Ministério Público, fazer o levantamento do patrimônio artístico, histórico e arquitetônico de Santarém. Feito esta etapa, apresentar um projeto de tombamento e preservação do patrimônio histórico de Santarém ao Governo municipal e estadual.

Sabemos que não basta apenas tombar, mas também preservar. Para isso é preciso uma política de incentivo à preservação histórica, coisa que parece inexistir em nosso município até o momento, mas que esperamos poder mudar... Bem, estamos trabalhando para que essas mudanças também possam ocorrer. Pois o tempo de apenas lamentar já passou, está na hora de partimos para uma ação conjunta de conscientização e preservação da nossa história.

Enquanto isso, algumas pessoas tentam fazer o que podem para evitar a depredação da nossa história. Já sabemos que no futuro, apenas as fotos ou alguns registros dirão: aqui neste lugar havia a casa tal, de morador tal, que foi demolida para a construção de tal loja... Infelizmente alguns turistas vão rir da nossa cara ou jogar chacota para um povo que, ao menos atualmente, pouco valor parece estar dando à sua própria memória histórica.

Muito há que cobrar do governo, mas também devemos cobrar de nós mesmos. Afinal de contas, o que estamos fazendo para conhecer a nossa história e preservá-la?

(*) É presbítero da Diocese de Santarém, membro da Academia de Letras e Artes de Santarém - ALAS e atual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós - IHGTap.

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