Pequena aula de história e gramática sobre o Sairé


Por: Pe. Sidney Augusto Canto


Atenção para os seguintes pontos:

1) O “Ç” (cedilha) NÃO É UMA LETRA. Na verdade é um sinal diacrítico (se não sabe o que é isso, consulte um dicionário, se não souber e não quiser consultar um dicionário, lembre que o “~” (til), também é um sinal diacrítico, já viu aí alguma palavra que comece com à ou Õ? Não, pois é...). Quem criou o “Ç” foram os espanhóis, depois copiado pelos portugueses. Hoje os espanhóis não o usam mais, tal qual também não usamos mais o “¨” (trema).


2) Usamos o ALFABETO LATINO (E não! Não é “do” Latino, o cantor), cujas letras são usadas em nossa “língua portuguesa” (que nos foi duramente imposta pelo Marquês de Pombal, em meados do século XVIII). Os índios da Amazônia, NÃO USAVAM ALFABETO (e se usavam o mesmo se perdeu há muito tempo atrás). Por isso, os índios nativos de nossa terra NÃO ESCREVIAM (e, portanto, não escreviam também a palavra “SAIRÉ ou ÇAIRÉ” – conforme sua preferência política escolher).

3) Na Amazônia, os padres jesuítas foram os PRIMEIROS a ensinarem os índios a ler (parece incrível, mas não necessariamente ensinavam a escrever, porque será?) um idioma por eles criado, chamado pelos brancos de “Língua Geral” e pelos indígenas de “Nheengatu”. Isso foi feito para “facilitar” a comunicação entre os índios e os padres, com finalidade em primeiro lugar de catequese (os catecismos eram escritos nessa língua), em segundo lugar de evitar que os colonos portugueses se comunicassem com os índios das Missões (para dificultar o comércio, principalmente de escravos).

4) Quem for ler os “DOCUMENTOS ORIGINAIS” de época, escritos pelos padres que primeiro tiveram contato com os índios da região (e que criaram o “Nheengatu”) não vai encontrar o uso do “Ç”. Exemplo: o próprio Bettendorff, que escreveu um Catecismo em Nheengatu para os índios de Santarém e região (inclusive para os Borari) usa com frequência o termo: PAYUASSÚ (Padre Grande) com dois “S” (ao contrário do “Ç” que alguns usam hoje). Os primeiros registros do “ASSAHY” foram também do século XVIII (hoje escrevemos açaí). NÃO ESQUEÇA que os índios apenas FALAVAM estas palavras e NÃO ESCREVIAM. Quem escrevia eram os PADRES, por isso, os melhores documentos para pesquisar a vida dos índios da Amazônia nos dois primeiros séculos da colonização, ainda são os escritos dos Padres (jesuítas, em sua maioria).


5) No final do século XIX, foi INTRODUZIDO o uso do “Ç” para grafar palavras da língua indígena. Na Amazônia, o primeiro a fazer o uso do “Ç” para grafar palavras indígenas foi o naturalista Barbosa Rodrigues. Aliás, é interessante ler o que ele escreveu: “Uns no Norte, outros no Sul, uns portugueses, outros espanhóis, todos trataram de escrever a língua que OUVIAM, conforme lhes soava aos ouvidos, com ortografia própria, e acomodando-a à língua do país donde eram filhos” (o grifo é meu). Em vista disso, o NHEENGATU original (da época dos jesuítas) QUE NÃO TINHA O USO DO “Ç” (por isso padres como Bettendorff usavam IGARAPÉ UASSÚ ao invés de IGARAPÉ-AÇÚ), pois se adaptaram ao português daquela época, começou a sofrer uma nova intervenção, não dos índios, mas de um estudioso “branco”.

Como Barbosa Rodrigues introduziu o “Ç” primeiramente no Tupi (do Sul), e considerando ele que o Nheengatu do Norte era uma variação do mesmo, o referido naturalista começou a iniciar palavras com esse sinal (e aí surgiu Çacy, Çairé, Çamunha, que quer dizer avô, etc). Isso quase no fim do século XIX, quando Barbosa Rodrigues quis “arrumar” o Nheengatu do Pará, que, segundo ele, já estava CORROMPIDA (alguns acham que ele quis ensinar aos índios como eles deviam falar corretamente, mas isso é outra história). Muita gente foi “na onda” do Barbosa (E não! Não é o Barbosa, juiz) e ajudaram a fazer uma confusão doida. Pois, na verdade, o Tupi do Sul e o Nheengatu do Norte têm origens diferentes, de línguas diferentes, faladas de modos diferentes, escutada por PADRES diferentes e foram escritas de modo diferente (com tanto “diferente” nessa história, tem quem queira que tudo seja igual).

Agora a lição de casa: Se os índios não tinham alfabeto (isso é uma “certeza” até que possa surgir um achado arqueológico que prove o contrário), como é que eles podem ter escrito uma palavra como “Sairé” (usado pelos Padres) ou “Çairé” (introduzido por Barbosa Rodrigues)? E mais: se ainda hoje se usa do mesmo artifício de “escrever” o que se ouve, usando as normas gramaticais em vigor, quando um índio disser hoje o vocábulo “Sairé”, devemos escrever com “S” ou com “Ç”?

Quero lembrar que as normas gramaticais em vigor para a língua portuguesa, não permitem que, em português, se inicie palavra com sinal diacrítico. Ou seja, se você fala português e escreve nessa língua, o correto é SAIRÉ. Agora, se você fala outra língua (tipo o Tupi ou Nheengatu “MODERNO”) o uso é permito, contanto (segundo as normas da ABNT) que seja entre aspas, ou negrito, ou itálico ou sublinhado (pois tais línguas não são consideradas “oficiais” para o nosso país). E nem podem os vereadores de Santarém, mudarem estas normas, como alguns querem. Fazer uma lei assim seria piada, pois a norma já existe: pode-se escrever tanto SAIRÉ, como “ÇAIRÉ” observando-se as regras gramaticais em vigor. Agora, se no futuro a ABNT mudar as normas, tudo bem... E que venha o próximo capítulo desta emocionante história!


(*) É presbítero da Diocese de Santarém, membro da Academia de Letras e Artes de Santarém - ALAS e atual Presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós - IHGTap.

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