STF - Professora questiona financiamento privado por pessoas jurídicas
Ao
analisar a questão sobre a possibilidade de financiamento eleitoral por
pessoa jurídica, a professora da Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro (UNIRIO) Debora Lacs Sichek considerou que duas questões
devem ser observadas: a ótica do direito constitucional brasileiro, sob a
perspectiva histórica, e o enfoque com base nas normas de direito
empresarial vigente.
Na
audiência pública sobre financiamento de campanhas eleitorais,
realizada no Supremo Tribunal Federal, a expositora abordou a evolução
do direto brasileiro quanto às normas legais. Entre outros pontos, ela
afirmou que já houve época no país em que a renda de uma pessoa
determinava se ela tinha direito de voto ou não. A professora também
falou do momento em que as mulheres passaram a votar.
“Observo
que o resultado eleitoral deve expressar o sentimento e a vontade da
sociedade manifestada através do voto livre, não influenciada por
truques de mídia ou por propagandas milionárias onde os recursos
utilizados cativam o eleitor, e não o seu conteúdo”, disse. “Não me
parece prudente autorizar que pessoas jurídicas possam ser doadores de
campanhas eleitorais na medida em que estas não atuam como cidadãos, mas
sim como instrumentos para o alcance de uma atividade produtiva”,
afirmou Debora Lacs Sichek, ressaltando que apesar de a pessoa jurídica
não ser eleitor, pode se beneficiar com o resultado das eleições.
“Nesse
ponto, levando em conta que a própria Constituição vigente no Brasil -
ao normatizar a ordem econômica, estabelece a livre iniciativa, mas
determina que se combata o abuso do poder econômico - não me parece
conveniente que a legislação eleitoral abra uma brecha para que esta
possa viciar o processo eleitoral”, finalizou.
Secretário de Governança de Porto Alegre
O
expositor Cezar Busatto, da Secretaria Municipal de Governança Local de
Porto Alegre (RS), defendeu o financiamento das campanhas diretamente
pelo cidadão, como forma de estabelecer uma nova modalidade de
relacionamento entre candidatos e eleitores e de reduzir ou eliminar a
prevalência dos interesses das grandes corporações sobre os interesses
da sociedade.
O
modelo defendido por Busatto é o adotado pelo atual presidente dos
Estados Unidos, Barack Obama, em suas duas campanhas eleitorais, em 2008
(da qual participou como voluntário) e 2012. Segundo o secretário,
Obama abriu mão dos recursos públicos para financiamento e ficou “livre
de se submeter às limitações impostas pela legislação eleitoral”.
Uma
das vantagens do financiamento privado direto pelo cidadão apontadas na
exposição é a limitação da participação de interesses corporativos.
Busatto lembrou que, nas eleições de 2010, 44% dos custos da campanha de
Dilma Rousseff vieram de apenas 25 empresas, onze delas da área de
construção civil.
Outro
ponto mencionado foi a transparência. Nas campanhas de Eduardo Paes à
reeleição para a Prefeitura do Rio de Janeiro e na de José Serra para a
de São Paulo, o expositor assinalou que a maioria das doações foram
relacionadas genericamente, vinculadas a diretórios e comitês. “A falta
de transparência fragiliza o sistema democrático de decisões”, afirmou.
Para
Busatto, o financiamento pelo cidadão representa “um modo muito mais
democrático e ético”, que altera tanto a natureza das campanhas quanto o
perfil dos candidatos eleitos. “A obtenção de fundos online aumenta o
pluralismo e gera padrões mais igualitários de competição eleitoral”,
concluiu.
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