Especialistas defendem revisão do papel do poder público na gestão do lixo
A
gestão eficiente dos resíduos urbanos depende da atuação direta das
prefeituras, assinalou o chefe do Departamento de Engenharia Térmica e
Fluidos da Universidade de Campinas (Unicamp), Waldir Bizzo. No entanto,
conforme ressaltou, na década de 90, a maioria dos munícipios brasileiros terceirizou esse serviço e hoje são extremamente ineficientes na condução do setor.
O
professor da Unicamp participou do seminário Desafios para a
Implementação da Lei dos Resíduos Sólidos, organizado pela Comissão de
Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, encerrado nesta
quinta-feira (6).
Redução do descarte
Bizzo
destacou que a legislação relacionada às licitações é incompatível com
princípios da não geração e da redução de material descartado, previstos
na Lei de Resíduos Sólidos (12.375/10). “Os contratos de coleta de lixo
urbano são remunerados por tonelada recolhida, então, interessa
produzir mais lixo”, sustentou.
Segundo
o professor, para funcionar, os departamentos de limpeza deveriam
contar, pelo menos, com autonomia financeira, agilidade e poder de
decisão. No entanto, relata que pesquisa realizada em 20 municípios
paulistas mostrou que em apenas 20% deles o gestor tem autonomia de
decisão, e só em 5% havia algum programa de capacitação das equipes. Com
isso, asseverou, “as prefeituras não sabem sequer o que pedir nos
contratos, e sobressai a visão da empresa”.
No programa Salão Verde, da Rádio Câmara, prefeitos defendem prorrogação do prazo para eliminar lixões
“Máfia”
O
diretor de Políticas Públicas da SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani,
sustenta que o setor de coleta de lixo tornou-se foco de corrupção por
responder pela maior parcela dos orçamentos municipais. “As empresas que
fazem coleta são uma máfia que se instalou hoje no País e precisamos
combater”, defendeu.
O
professor Bizzo ressaltou que a coleta de resíduos urbanos consome, em
média, 5% das verbas das prefeituras. Nacionalmente, trata-se de um
mercado que movimenta certa de R$ 18 bilhões anuais, conforme calculou.
Responsabilidade
A
gerente de projetos da Associação Técnica Brasileira da Indústria de
Vidro (Abividro), Ana Paula Bernardes, também cobrou do poder público
que assuma o comando da política de resíduos sólidos.
Para
a dirigente, “o governo tem de decidir a responsabilidade de cada elo
da cadeia produtiva e apresentar a parte da conta que cabe a cada um”.
Do contrário, afirmou, sistemas de logística reversa e reciclagem
ficarão restritos a grandes centros.
O
gerente de Projetos da Secretaria de Recursos Hídricos e Meio Ambiente
do Ministério do Meio Ambiente, Ronaldo Hipólito Soares, ressaltou que a
lei apresenta duas possibilidades para a definição das
responsabilidades dentro da política de gestão de resíduos – por decisão
do próprio setor produtivo ou por decreto. E garantiu: “se as entidades
não conseguirem decidir, o governo vai dizer com certeza”.
Desafio
Ronaldo
Soares reconhece a dimensão do desafio do País para cumprir a
legislação sobre resíduos. O gerente do Ministério do Meio Ambiente
destacou que apenas 3% de todo o lixo gerado são reciclados atualmente.
Estima-se que até 83% desse volume poderiam ser reaproveitados, como
prevê a lei.
A
coordenadora do Comitê Interministerial de Inclusão dos Catadores,
Daniela Gomes Metello, lembrou que, dos 5.561 municípios brasileiros,
2.800 ainda contam com lixões. Pela lei, esses locais têm de ser
desativados até agosto do ano que vem.
Força-tarefa
Para
o vice-presidente da Comissão de Meio Ambiente deputado Sarney Filho
(PV-MA), dificilmente os municípios conseguirão cumprir essa meta.
“Muitas cidades, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e
Centro-oeste, não têm qualificação técnica para elaborar os planos de
resíduos”. Para que a lei seja cumprida, defende uma “decisão de
governo”, com a criação de uma força-tarefa para cumprir suas
determinações.
No
entanto, não é somente nos pequenos centros urbanos que ainda existem
lixões. Em Brasília, como ressaltou o representante do Movimento
Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, Ronei Alves da Silva,
encontra-se o maior do País. Também para o catador, um dos problemas são
os contratos de coleta. “A cidade gasta R$ 389 milhões por ano com
limpeza pública e continua essa situação”, ponderou.
Fonte: Câmara dos Deputados Federais
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