Estados destacam inciativas e apresentam propostas de melhoria para estabelecimentos prisionais
A
representante da Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do
Estado do Paraná, Maria Tereza Uille, expôs em sua apresentação, no
segundo e último dia de audiência pública sobre regime prisional
realizada no Supremo Tribunal Federal (STF), uma proposta de lista de
saída de presos do regime semiaberto para o aberto (domiciliar) com base
em critérios objetivos. Para a secretária, o maior desafio enfrentado
atualmente na execução penal é a falta de gestão do sistema de
informações.
Ela
informou que o estado apresentou proposta ao Departamento Penitenciário
Nacional (Depen) para construção de 10 estabelecimentos penais para o
regime semiaberto. Mas que enquanto não são construídas vagas
suficientes, a Secretaria de Justiça do Paraná propõe que o
recém-condenado a regime inicial semiaberto tenha preferência na
ocupação de vaga no regime semiaberto, enquanto se organiza, seletiva e
criteriosamente, uma “fila de espera”, administrada pela Corregedoria do
Poder Judiciário, em conjunto com o Poder Executivo, para que seja
concedida a prisão domiciliar aos presos mais antigos, até que não
faltem vagas no semiaberto.
Dados nacionais
Ao
longo de sua exposição, Maria Tereza apresentou dados sobre o cenário
prisional no Brasil, de acordo com dados do Sistema Integrado de
Informações Penitenciárias (Infopen). Atualmente, o que mais encarcera
no Brasil é o crime de tráfico de drogas. Ao todo, há 127.149 pessoas
presas por esse delito. Em segundo lugar, está o roubo qualificado, com
94.447 detentos, seguido dos crimes de roubo simples, com 48.216
condenados, furto qualificado, com 36.671 presos, furto simples, com
35.769 apenados, e homicídio qualificado, com 34.463 detentos.
Para
Maria Tereza, o homicídio deveria liderar esse ranking, uma vez que
esse delito, ao lado do latrocínio, “tira vidas”. “Mas, infelizmente,
são outras infrações que hoje estão encarcerando”, disse.
Superlotação e falta de vagas
A
secretária enfatizou que, atualmente, o Brasil tem a quarta maior
população carcerária do mundo, com 549 mil presos em números absolutos.
De acordo com ela, se o país continuar com a mesma intensidade de
criação de vagas e superlotação, em dez anos, o país passará a contar
com mais de um milhão de condenados, com um déficit de vagas na ordem
745 mil.
Para
a construção dessas novas vagas, o impacto financeiro seria de R$ 22
bilhões, sendo que, atualmente, o custo da gestão mensal impacta em R$
14 bilhões por mês.
“O
foco correto seria estimular vagas no regime semiaberto. Ao estimular
tais vagas, conseguiríamos reduzir o custo de gestão e, mais importante
do que isso, conseguiríamos a efetiva ressocialização das pessoas, o
que, em última análise, é o que lei de execuções penais pretende”,
disse.
Maria
Tereza destacou que, diferentemente da maior parte dos estados
brasileiros, o Paraná apresentou queda acentuada de 22% na taxa de
encarceramento nos últimos cinco anos, considerando como referência cada
100 mil habitantes.
Inovação
Desenvolvido
pela Secretaria de Justiça paranaense, a ferramenta Business
Intelligence (BI), um sistema de controle de gestão da execução penal,
permite, independentemente dos sistemas de informação do Judiciário, do
Ministério Público e do Sistema Penitenciário, o resgate de informações
gerenciais na área.
De
acordo com a secretária, essas informações permitem melhor gerenciar os
mutirões carcerários, bem como verificar a data correta da progressão,
do livramento e do término de pena com base no cruzamento de informações
oito dias antes de o sentenciado atingir o direito a esse benefício.
Rio Grande do Sul
O
secretário de Segurança Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Airton
Michels, destacou que são necessárias mudanças na legislação de tóxicos e
punições mais rígidas para crimes cometidos com o uso de armas de fogo,
como assaltos à mão armada e homicídios. Ele acrescentou que devem ser
feitas mudanças na construção dos presídios com o uso de engenharia mais
barata do que a utilizada atualmente.
Além
de apresentar dados acerca do sistema prisional do Rio Grande do Sul,
Michels explicou que transformações serão implementadas na área, entre
elas, a disponibilização de mil tornozeleiras para presos e a abertura
de um presídio especial, em parceria com a Secretaria de Saúde do
Estado, denominado Centro de Reintegração Social, direcionado,
exclusivamente, a presos condenados por tráfico de drogas.
Segundo
ele, o local contará com alojamentos, em substituição às celas, e com a
redução de custos com engenharia. “Estamos instituindo o presídio em
que o mote maior é baixar o custo da vaga, que, em média, no Brasil, é
de R$ 50 mil. Esse nosso presidio é fechado, com o custo de R$ 20 mil a
vaga”, disse.
Ao
fim de sua exposição, Airton Michels elogiou a iniciativa do ministro
Gilmar Mendes na convocação de audiência pública sobre regime prisional e
ressaltou o histórico do ministro na proposição de discussões sobre o
sistema prisional brasileiro.
São Paulo
Em seguida, foi a vez do secretário da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, Lourival Gomes, fazer sua exposição.
Ele
informou que, de 1º de janeiro de 2011 até 20 de maio deste ano, o
crescimento da população carcerária no Estado foi de quase 35 mil
presos, o que representa um aumento médio mensal de 1.200 presos. Além
disso, até o dia 30 de abril deste ano, a Secretaria da Administração
Penitenciária do Estado recebeu 40.936 presos da Secretaria de Segurança
Pública de São Paulo, o que representa uma média de inclusão mensal de
10.234 presos no sistema.
No
regime semiaberto, o Estado tem cerca de 24 mil pessoas, e a fila de
espera conta com 6.402 presos que se encontram no regime fechado e
obtiveram progressão ao regime semiaberto. “Não há fila de espera para
presos condenados inicialmente em [regime] semiaberto”, disse.
Construção de prisões
Mesmo diante desse saldo, Lourival Gomes afirmou que se “é quase uma que missão impossível” construir prisões em São Paulo,
“quando se fala em [centro de detenção] semiaberto, conseguimos juntar,
politicamente falando, oposição, situação, pastor, padre e até juiz
[contra]”.
Segundo
ele, o programa de São Paulo para construção de 49 prisões para presos
em regime semiaberto “avança a passos de tartaruga não por inoperância
do Estado, mas porque há uma rejeição enorme da sociedade paulista”.
De
toda forma, a construção de um centro de progressão penitenciária
deverá ser concluída em julho de 2013 e outra está prevista para ser
finalizada em dezembro. Ele
disse ainda que também serão construídas alas de progressão
penitenciária de semiaberto em unidades prisionais de regime fechado.
Lourival
Gomes chamou atenção para o alto índice de pessoas em situação
irregular, por não retornarem ao sistema prisional após conseguirem
aguardar a vaga no regime semiaberto em regime aberto. “Se analisarmos
que temos cerca de 6 mil pessoas na fila de espera e que 60% poderão não
retornar à prisão, teremos 3.600 pessoas em situação irregular. Aqui
fica uma dúvida: [essa situação] aumentará ou não a taxa de
criminalidade”, questionou.
Penas alternativas
Lourival Gomes acrescentou que o investimento feito em São Paulo
não se destina apenas ao cumprimento da pena de prisão. “Essa não é
sempre a solução.” Segundo ele, o Estado cria centrais de penas e
medidas alternativas, permitindo que os juízes tenham uma ferramenta
útil para os delitos de menor potencial ofensivo.
“Hoje temos quase 16mil pessoas que praticaram delitos em São Paulo
e tiveram as penas convertidas em prestação de serviço à comunidade. O
índice de reincidência nesse caso pode ser medido e é na ordem de 5%.”
Ele
afirmou ainda que não é possível calcular o índice de reincidência em
regime fechado, seja na prisão ou detenção. “Há várias pessoas que se
manifestam, que chutam os índices, no entanto, nós do sistema prisional
desconhecemos o método que se aplicou para a pesquisa. Então, os números
de reincidência do regime fechado ou da pena de detenção não é sabido.”
Fonte: Supremo Tribunal Federal
Comentários
Postar um comentário