Ex-presidente do STF critica deputados que querem afrouxar Ficha Limpa
A
tentativa do Congresso de alterar a Lei Ficha Limpa, beneficiando maus
gestores, é criticada antes mesmo de entrar na pauta de votação. O
ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Ayres
Britto, ex-presidente da Corte, questionou a constitucionalidade e
chamou de “desastroso retrocesso” a iniciativa de um grupo de
parlamentares de aprovar projeto que abranda a legislação que pune os
fichas-sujas. Coordenado pelo deputado federal Cândido Vaccarezza
(PT-SP), o grupo de trabalho responsável pela elaboração do projeto de
lei complementar vai tentar levar a proposta a votação no plenário da
Câmara na próxima semana.
O texto beneficia prefeitos condenados por
tribunais de contas que não tiveram os gastos rejeitados pelas câmaras
municipais, responsáveis por julgamentos meramente políticos. Ayres
Britto foi o relator do primeiro processo que obrigou o Supremo a se
posicionar a respeito da constitucionalidade da Lei Ficha Limpa,
reconhecida em 2010.
De
acordo com a Constituição, as contas dos administradores e demais
responsáveis pelo dinheiro, bens e valores públicos devem ser julgadas
pelo Tribunal de Contas. A Lei Ficha Limpa deixou claro que a regra
também se aplica aos chefes do Executivo que chamam para si a tarefa de
assinar empenhos e ordens bancárias de pagamento, por exemplo. Na
prática, a regra atinge prefeitos de municípios pequenos. Pelas normas
atuais, caso condenados pelos tribunais de contas, os mandatários
municipais se tornam inelegíveis nos oito anos seguintes à data da
decisão. O projeto de lei complementar que deverá ser discutido na
reunião de líderes da Câmara na semana que vem altera esse dispositivo,
prevendo que o prefeito só se torna inelegível se o Legislativo
municipal condenar as contas.
Para
Ayres Britto, o projeto de lei complementar que será colocado para
votação no Congresso parte de um pressuposto “falso e equivocado
juridicamente”, que vai “contaminar a pureza jurídica do resultado”. “As
câmaras (legislativas) não emitem juízo técnico. A decisão das câmaras é
de conveniência e de oportunidade. Obedece a critérios exclusivamente
políticos. O Tribunal de Contas age como o Judiciário, fazendo o exame
de ajuste, de verificação da compatibilidade ou não dos atos do prefeito
aos modelos jurídicos pertinentes, coisa que as câmaras (legislativas)
não fazem. Elas não são órgãos técnico-jurídicos, são órgãos políticos
que só sabem e só podem decidir por critérios subjetivos de conveniência
e de oportunidade”, disse Ayres Britto. “Quem trabalha com objetividade
e não com subjetividade de capricho, não com cumplicidade e não à base
de alianças é o Tribunal de Contas. As câmaras se movimentam num outro
espaço decisório, que não tem nada de técnico e tudo de político. A Lei
Ficha Limpa já foi julgada constitucional pelo Supremo. Nela, o Poder
Legislativo não tem função judicante, tem função legislativa”,
complementou.
Na
quarta-feira, Vaccarezza afirmou que a proposta será levada ao colégio
de líderes e ao plenário da Câmara dos Deputados na terça-feira. A
previsão dele é de que o texto seja aprovado até o fim de junho. Sobre a
possibilidade de a proposta passar no Congresso, Ayres Britto é
enfático: “Do ponto de vista da depuração ética dos costumes
político-administrativos, acho um lamentável retrocesso para não dizer
um desastroso retrocesso, com todo o respeito aos que pensam
diferentemente. Do ponto de vista da pura juridicidade, acho um tremendo
equívoco”. “O Congresso está partindo de uma premissa falsa de que
compete ao Legislativo julgar não só as contas anuais, mas as triviais,
tópicas, pontuais, as chamadas contas de gestão. Essa tipologia de
atuação exige exames objetivos e, portanto, técnicos, coisa que a
Constituição jamais habilitou o poder legislativo a fazer”, disse o
ministro aposentado do STF.
Reforma
política “É uma armadilha o que esse grupo (de parlamentares
responsáveis pela elaboração do projeto de lei complementar) está
tentando montar. Se o prefeito tem maioria na câmara (municipal), o que
geralmente tem, não vai ter consequências para ele”, disse o juiz Márlon
Reis, um dos fundadores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral
(MCCE). A possibilidade de o prefeito também ser ordenador de despesas,
em vez de delegar a tarefa à área técnica da administração municipal,
favorece a concentração de funções e os desvios de recursos.
Procurado
para falar sobre a viabilidade de a proposta ir a plenário na próxima
semana, o líder do DEM, Ronaldo Caiado (GO), disse que ainda não existe
acordo. “Vamos discutir segunda à tarde. Depois, vamos dar o parecer”,
afirmou. Quando questionado sobre a possibilidade de o PT apoiar a
mudança na Lei Ficha Lima, o líder do partido na Câmara desconversou.
“Não sei se posso concordar se nem conheço o texto”, disse.
Fonte: Jornal Estado de Minas Gerais
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