Desembargadora diz que conflitos de competência prejudicam segurados do INSS
Para a desembargadora Marisa Ferreira dos Santos, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), sediado em São Paulo,
os conflitos de competência entre a Justiça Federal e a Justiça dos
estados atrasam a liberação de benefícios para os segurados da
Previdência Social.
A
magistrada, que é presidenta da turma especializada em benefícios
previdenciários do TRF3, fez o alerta nesta terça-feira (14) ao proferir
palestra no IV Curso de Iniciação Funcional para Magistrados da Escola
Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados Ministro Sálvio de
Figueiredo (Enfam). A qualificação reúne 120 juízes recém-empossados
dos Tribunais de Justiça de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Pará e
Rondônia e prossegue até sexta-feira (17).
A
desembargadora Marisa Ferreira aponta a falta de diálogo entre as
Justiças como um dos principais fatores que levam aos conflitos de
competência. “Se magistrados estaduais e federais conversassem mais, 90%
dos conflitos poderiam ser resolvidos rapidamente, beneficiando os
usuários da Previdência”, opinou.
Também
destacou que nem toda ação envolvendo temas previdenciários é
automaticamente de competência federal, pois deve ser levada em conta a
comarca de domicílio do beneficiário. “A Justiça Federal tem feito um
grande esforço para interiorizar os fóruns, mas a estadual ainda tem uma
rede muito maior e é mais próxima das pessoas”, informou.
Justiça itinerante
Marisa
Ferreira defendeu a celebração de convênios entre a Justiça estadual e o
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para que os magistrados
tenham acesso aos sistemas de informação da autarquia e, assim, possam
agilizar suas decisões. “Muitas vezes, uma ação previdenciária simples
demora até quatro anos para ser decidida. Mas quando a Justiça Federal
Itinerante vai ao município, a questão é resolvida em poucos dias, e a
Justiça estadual é tida como incompetente. Mas o problema é a falta de
acesso à informação”, disse.
A
desembargadora também defendeu a uniformização dos manuais para cálculo
dos benefícios. Segundo ela, em âmbito federal esse manual é unificado,
mas cada Justiça estadual tem metodologia própria. “Muitas vezes isso
gera recursos e atrasos. Mais uma vez, o diálogo e a unificação dos
manuais poderiam resolver a questão”, afirmou.
Por
fim, a desembargadora Marisa Ferreira acrescentou que a legislação
previdenciária é complexa e de difícil compreensão. Ela acredita que,
com o sistema atual, nunca haverá cobertura integral de todos os
contribuintes. “Ainda temos um sistema que arrecada muito e protege
pouco o cidadão. A ênfase é fazer caixa para o governo. Temos de nos
concentrar mais nos problemas de gestão e melhorar a cobertura”,
ponderou.
Sistema carcerário
Em
outra palestra aos participantes do Curso de Iniciação Funcional de
Magistrados, o juiz Márcio Keppler, do Tribunal de Justiça do Rio Grande
do Sul, avaliou que a magistratura brasileira também é responsável
pelas condições deploráveis do sistema carcerário, tanto quanto o poder
Executivo.
O
magistrado gaúcho, que é ex-juiz auxiliar do Conselho Nacional de
Justiça (CNJ) - onde trabalhou no Departamento de Monitoramento e
Fiscalização do Sistema Carcerário e Medidas Socioeducativas -, lembrou
que cerca de 44% da população carcerária do Brasil, que hoje supera os
580 mil detentos, é composta de presos provisórios.
“Isso
é responsabilidade direta dos juízes, porque ou deixaram de julgar o
provisório ou não determinaram que ele saísse de lá. Nós estamos
banalizando a prisão provisória. Então, a superlotação do sistema não é
culpa só do Executivo”, afirmou. Segundo ele,
o déficit de vagas no sistema carcerário chega a 188 mil unidades.
O
palestrante exortou os novos juízes a conhecerem de perto a realidade
dos presídios. “Vocês precisam ir num presídio. Imaginar o que é viver
uma semana, um mês naquelas condições. Devem se perguntar se o preso
pode se recuperar numa situação daquelas. É preciso essa noção da
realidade até para avaliar a efetividade das medidas que os senhores
irão aplicar”, disse.
Por
outro lado, o magistrado gaúcho destacou que existem também boas
iniciativas no sistema, como no Espírito Santo e no interior de São
Paulo, onde foram criadas várias instituições modelo. Keppler opinou
que, para “arrumar a casa” do sistema carcerário, seriam necessários,
com otimismo, pelo menos dez anos. “Mas a solução não é só construir
mais presídios, mas mudar a mentalidade de juízes e da sociedade, para
criar estruturas que permitam a aplicação de penas alternativas e outras
providências”, disse.
Depen
O
diretor do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça
(Depen), Eduardo Sousa Rossini, que também proferiu palestra aos novos
juízes, concordou com Keppler e destacou que “o executivo não é um
guardador de gente”. Para ele, “no Brasil se encarcera muito e mal”.
Defendeu
que a prisão deva ser usada de uma forma mais adequada e proporcional
ao delito: “Há um olhar equivocado da sociedade e da mídia sobre a
questão. Maltratar o preso é burrice, pois hoje ele está contido, mas
amanhã ele está contigo.”
Rossini
também disse que, para a reintegração social dos presidiários, é vital
implementar três eixos de ação: apoio à saúde, ao trabalho e ao ensino.
“A prisão deve excluir gente perigosa e não ser usada
indiscriminadamente”, concluiu.
Fonte: Superior Tribunal de Justiça
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