Conferencistas defendem limitação de gastos de campanha
Quatro
expositores na audiência sobre financiamento de campanhas promovida
pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - os ex-ministros do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) Pedro Gordilho e José Eduardo Alckmin e os
advogados Paulo Henrique dos Santos Lucon e Ricardo Penteado, do
Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP)
- defenderam, na tarde desta segunda-feira (17), posições coincidentes
no sentido da manutenção de doações para campanhas eleitorais, tanto de
pessoas físicas quanto jurídicas. Preconizaram, entretanto, o
estabelecimento de limites de gastos, para que todos os candidatos
possam participar de eleições em condições de igualdade.
Seu
pensamento coincidiu no sentido de que proibir o financiamento de
campanhas por pessoas jurídicas acabaria praticamente impedindo o
surgimento de partidos e candidatos novos. Por outro lado, segundo eles,
a limitação do financiamento de campanhas a recursos públicos teria
efeito oposto ao pretendido. Isso porque todos os projetos em tramitação
no Congresso Nacional sobre a matéria têm como base a atual
representação dos partidos políticos. Portanto, o resultado não seria
outro senão a perpetuação dos partidos que estão hoje em maioria, em
detrimento da criação de novos partidos e da eleição de novos
candidatos.
Gordilho
O
advogado Pedro Gordilho lembrou que, pela Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) 4650, proposta pela Ordem dos Advogados do
Brasil, questionando dispositivos da Lei dos Partidos Políticos (Lei
9.906/95) e Lei das Eleições (Lei 9.504/97), o financiamento de
campanhas eleitorais e partidos políticos seria inconstitucional, assim
como o seriam os limites fixados para doações de pessoas jurídicas e,
até, pelos próprios candidatos. Haveria afronta aos princípios
democrático, republicano, da igualdade e da proporcionalidade.
Entretanto,
segundo ele, se acolhido esse pleito, ficariam suspensas, desde já,
todas as doações, até o Congresso Nacional estabelecer novas regras,
admitindo somente doações de pessoas naturais e, mesmo assim, em valor
extremamente baixo.
Com
isso, porém, de acordo com o ex-ministro do TSE, o resultado que se
alcançaria seria diametralmente oposto ao desejado, frustrando o próprio
desejo da OAB e da Procuradoria-Geral da República, que se manifestou
pelo provimento do pleito da OAB. Ou seja, estimular-se-ia a
desigualdade, alijando justamente os que se pretende favorecer, os novos
partidos e candidatos.
Alckmin
Também
pela manutenção das doações, mas pelo estabelecimento de parâmetros
constitucionais para o Legislativo estabelecer novas regras para o
financiamento de campanhas, o ex-ministro do TSE José Eduardo Alckmin
disse que sua preocupação, hoje, é com a duração “extremamente curta”
das campanhas políticas. De acordo com ele, não houve o propalado
aumento de custos das campanhas, mas sim uma transparência maior dos
gastos.
No
entender dele, o que precisa melhorar é a clareza das campanhas e,
também, a oportunidade de maior exposição na mídia, bem como o combate à
prática de caixa 2.
Por
fim, ele saudou informação dada, durante a audiência, pelo deputado
Henrique Fontana Júnior (PT-RS), de que o Congresso vai regular o
assunto, estabelecendo limite de gastos para cada candidato. Assim, em
vez da origem dos recursos, o que se controlaria seriam os gastos do
candidato, tese com a qual concorda.
IASP
O
vice-presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP), Paulo
Henrique dos Santos Lucon, destacou que a pessoa jurídica não é só
responsável por gastos, mas tem também uma grande responsabilidade
social e paga impostos. Sem ela, observou, o país não se desenvolve.
Então, em seu entender, o que se deve coibir são abusos, “é a relação
tóxica” entre financiador e financiado.
Ele
defendeu a limitação do valor dos gastos de campanha e sua maior
transparência, informando-se quem financiou quem. E que se facilite a
contribuição de pequenos doadores, por meio da internet ou de cartão de
crédito. Por isso, segundo ele, no julgamento da ADI 4650, o STF deve
apenas estabelecer as diretrizes para o Legislativo fixar novas regras
para o financiamento das campanhas.
Também
em nome do IASP, o advogado Ricardo Penteado disse que a política é uma
necessidade humana que tem seu custo, e seu financiamento é assemelhado
ao da cultura e da saúde, por exemplo. O que precisa ser evitado é a
relação tóxica do poder econômico com a atuação dos agentes públicos.
Segundo
ele, a discussão da audiência “tem mais a ver com a gestão da coisa
pública do que com o processo eleitoral”. Ele questionou se a relação
tóxica de que falou terá um fim com o financiamento público das
campanhas. Na opinião dele, o financiamento público apenas consolidará o
“status quo” (a situação existente), com a perpetuação dos que estão no
poder.
Ainda
de acordo com ele, a superação das desigualdades entre os candidatos
não pode caber ao Estado, mediante o financiamento público das
campanhas. “Tem que partir da sociedade, não do Estado”, afirmou.
“Estamos substituindo a sociedade viva, atuante, pelo Estado, que vai
apresentar candidatos de categorias diferentes”.
Por
fim, ele advertiu para o risco de, ao se trazer o tema financiamento de
campanhas para o nível constitucional, conforme sugerido na ADI da OAB,
“engessar o Congresso em todas as suas iniciativas para legislar a esse
respeito”. Ainda de acordo com ele, o assunto “deve ser tratado pelo
Congresso Nacional em lei ordinária”.
Fonte: Supremo Tribunal Federal
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