Randolfe apresenta projeto para mudar a Lei da Anistia
Se aprovada, proposta permitirá a punição de agentes do Estado que cometeram crimes na ditadura
O
senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) apresenta hoje (18.jun.2013) no
Senado projeto para rever a Lei da Anistia e permitir a punição de
agentes da ditadura.
O
texto também estabelece que crimes cometidos contra quem se opôs ao
regime militar são imprescritíveis, ou seja, podem ser punidos mesmo que
tenham ocorrido há muitos anos.
Randolfe
(foto abaixo) afirma ao Blog ter apoio da OAB e de senadores do PT. Diz
que o Brasil está no momento “ideal” para rever a lei. Cita o trabalho
da Comissão da Verdade e ações promovidas pelo Ministério Público
Federal pedindo a punição de torturadores.
Ele
define seu projeto de lei como “o remédio que o STF aconselhou”. O
Supremo Tribunal Federal validou, em 2010, o perdão pelos crimes
cometidos na ditadura. “Se a Lei da Anistia é constitucional, vamos
mudar a lei”, afirma.
Projeto
semelhante, da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), tramita na Câmara.
Para Randolfe, o ambiente no Senado é “mais favorável” para debater a
revisão da lei.
Leia trechos da entrevista de Randolfe ao Blog:
Senador, qual o objetivo do seu projeto?
Superar
o dispositivo da Lei da Anistia que, na prática, foi feito para
inocentar os algozes. Estou pedindo a revisão da lei por dois motivos.
Primeiro: não existiu essa máxima de que o país vivia uma guerra. Não
era uma guerra. Foram cometidos crimes contra a humidade. Segundo: Os
que lutavam contra a ditadura, os “terroristas”, entre aspas, que ele
acusam, estão mortos, foram vítimas de uma ação arbitrária do Estado. O
Brasil já diagnosticou que houve uma política de Estado deliberada de
perseguição e autoritarismo.
O sr. já conversou com seus colegas do Senado a respeito?
Vou
protocolizar o projeto nesta 3ª (18.jun.2013) e a partir daí iniciar a
mobilização. Lideranças do PT já mostraram simpatia ao projeto. Eu não
vejo onde encontrar resistência, principalmente em um momento como esse,
quando temos a Comissão Nacional da Verdade, que apura crimes cometidos
durante a ditadura. Temos depoimentos como o do general [Carlos
Alberto] Brilhante Ustra, que fez confissão pública do que ocorreu no
período ditatorial.
Com quais líderes do PT o sr. falou?
Com
o líder do PT no Senado, Wellington Dias (PI), que disse que era uma
boa iniciativa. Falei também com o Lindbergh [Farias] (PT-RJ), ele disse
que era uma iniciativa boa, para tocar adiante.
O sr. tem apoio de alguma organização civil?
O
vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil [Claudio Pacheco
Prates Lamachia] já manifestou interesse para que a matéria seja
aprovada. Vou levar à OAB, à CNBB [Confederação Nacional dos Bispos do
Brasil] e à ABI [Associação Brasileira de Imprensa], as três entidades
responsáveis pela abertura democrática. Também vou procurar a Avaaz
[organização de abaixo-assinados online].
O
projeto prevê retirar da proteção Lei da Anistia os agentes públicos
que cometeram crimes contra quem se opunha ao regime militar. Agentes
privados que possivelmente tenham financiado centros de repressão
continuariam anistiados?
O
projeto propõe superar a Lei da Anistia. Obviamente, se existiram
agentes privados que contribuíram para os crimes da ditadura, eles
também devem ser responsabilizados.
Desde
que o Supremo validou a Lei da Anistia, em 2010, 4 dos 11 ministros se
aposentaram e foram substituídos por outros nomes. O sr. acha que há
chances de o tribunal rever sua decisão?
Eu
acho que nós estamos tentando utilizar o remédio que o Supremo nos
aconselhou [em 2010]. Se a Lei da Anistia é constitucional, vamos mudar a
lei. Este projeto de lei é consequência dessa decisão do Supremo.
O
Ministério Público Federal tem promovido ações que tentam driblar a Lei
da Anistia, com o argumento de que os desaparecidos políticos são
vítimas de um crime continuado: como os corpos ainda não apareceram, o
crime ainda não terminou e os agentes da ditadura não poderiam ser
beneficiados pela anistia. O sr. concorda com essa tese?
A
revisão da Lei da Anistia lei é decorrência de um clamor existente, da
ação [pela revisão da lei] proposta pela OAB [que acabou derrubada no
Supremo], dessa compreensão do Ministério Público Federal. Ao contrário
dos nossos vizinhos sul-americanos, nós temos um empecilho aqui para
responsabilizar os culpados pela ditadura. Qual é sesse empecilho? A Lei
da Anistia.
Como o sr. avalia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade até o momento?
Precisa
de mais transparência, é importante dar mais passos adiantes, tinha que
tornar seus depoimentos mais públicos. A sociedade brasileira tem que
ouvir e está preparada para ouvir as atrocidades que foram cometidas [no
regime militar]. O depoimento do general Ustra é um exemplo, tem que
ter transparência. O trabalho da Comissão Nacional da Verdade precisa
ser divulgado, para mobilizar a opinião publica.
A deputada Luiza Erundina (PSB-SP) já propôs um projeto de lei semelhante na Câmara. O sr. pretende unir as duas iniciativas?
O
projeto de lei dela está na Câmara. Eu acho que nós vamos ter no Senado
um ambiente mais favorável para aprovarmos logo e depois, quando o
projeto estiver na Câmara, apensar o projeto da Erundina.
Fonte: UOL Notícias
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