C.FED - Pacientes relatam dificuldade de acesso a tratamento de esclerose lateral amiotrófica
Estima-se
que, no Brasil, aproximadamente 15 mil pessoas tenham esclerose lateral
amiotrófica, conhecida como ELA. Trata-se de uma doença degenerativa
rara que faz com que a pessoa vá perdendo os movimentos progressivamente
até ficar totalmente paralisada, mas não prejudica a cognição.
Em
estado avançado, o paciente com ELA fica como uma espécie de
prisioneiro dentro do próprio corpo: entende o que acontece à sua volta,
mas não consegue falar, se mover, engolir alimentos, e tem que respirar
com a ajuda de equipamentos. O exemplo mais conhecido é o do físico
inglês Stephen Hawking.
A
primeira dificuldade dos pacientes com esclerose lateral amiotrófica é
conseguir o diagnóstico. Os sintomas iniciais da ELA são muito variados:
podem começar nos músculos da fala e da deglutição, ou nas mãos,
braços, pernas ou pés. Nem todas as pessoas com ELA sentem os mesmos
sintomas, mas todas têm fraqueza muscular progressiva e paralisia.
Uma
vez diagnosticada a doença, o segundo desafio é conseguir o tratamento
adequado para dar melhores condições de vida ao paciente, já que a
esclerose lateral amiotrófica não tem cura. O medicamento usado,
Rilutek, é fornecido gratuitamente nas farmácias de alta complexidade do
Sistema Único de Saúde (SUS).
Dificuldades
O
problema maior é o acesso aos procedimentos e equipamentos que auxiliam
o paciente a respirar e se alimentar, e aos profissionais
especializados no tratamento da doença.
A
presidente da Associação Pró-Cura da ELA, Sandra Mota, afirma que os
pacientes enfrentam dificuldades, principalmente, de conseguir
atendimento de forma contínua pelo SUS. “[O paciente] tem o atendimento
duas vezes por semana ou, quem sabe, de mês em mês.”
As
declarações foram feitas nesta quinta-feira (7), durante o seminário
sobre a esclerose lateral amiotrófica realizado em Brasília pela Frente
Parlamentar de Combate às Doenças Raras.
Pesquisas
Várias
pesquisas são realizadas no Brasil e no mundo para entender o que causa
a doença e buscar a cura. A chefe do Laboratório Nacional de
Células-Tronco Embrionárias da Universidade de São Paulo (USP), Lygia
Pereira, afirma que o problema, no País, não é tanto a falta de
dinheiro, mas a lentidão e a burocracia para os cientistas conseguirem
os produtos que necessitam para as pesquisas.
O
que mais falta no Brasil é agilidade. O pesquisador brasileiro tem que
esperar meses para conseguir um reagente para seguir a sua pesquisa. Sem
agilidade, a gente não tem como fazer pesquisas que, de fato, façam
alguma diferença. Para você ter uma ideia, nos Estados Unidos, é no dia
seguinte que esse reagente vai chegar na bancada [do cientista], disse
Lygia.
O
bancário aposentado José Léda, de 63 anos, tem esclerose lateral
amiotrófica. Os sintomas surgiram em 2003, com câimbras dolorosíssimas
nas batatas das pernas, mas o diagnóstico só foi obtido em 2005. De lá
para cá, ele já perdeu os movimentos das pernas e dos braços - só
manipula alguns objetos com a mão direita, se locomove em cadeira de
rodas e fala com dificuldades.
José
Léda, no entanto, encara a doença de forma positiva. “Eu acho que é um
desafio que o nosso Pai nos impôs para que a gente mostrasse o nosso
valor. Quem sabe vamos deixar um legado para futuras gerações e, quando
vierem a ser acometidos por um mal semelhante, já tenham algum
horizonte”, afirmou.
Mobilização
A
pressão das associações de familiares e amigos de pessoas com doenças
raras sobre o governo está resultando na elaboração de políticas
públicas para atender a essa parcela da população. Graças à insistência
das diversas associações, o Ministério da Saúde está elaborando uma
portaria que prevê atendimento integral às pessoas com doenças raras.
Na
Câmara dos Deputados, também estão sendo analisados projetos que tratam
do assunto (PLs 3086/12, 4411/12 e 1656/11, entre outros).
O
presidente da Frente Parlamentar de Combate às Doenças Raras, deputado
Maurício Quintella Lessa (PR-AL), destacou que é preciso que os governos
estaduais, municipais e o federal se sensibilizem com o problema das
pessoas que têm doenças raras, que são fatais. Hoje, as políticas do
Ministério da Saúde e das secretarias estaduais e municipais de Saúde
são de tapar os olhos e não dar nenhum tipo de atenção, porque é um
paciente muito caro. Como são poucas as pessoas acometidas pelas doenças
raras, elas não são prioridade da política pública brasileira nem da
indústria farmacêutica, ressaltou.
Segundo
o deputado, um dos objetivos da frente parlamentar é dar voz para que
essas pessoas se manifestem e se mostrem, para que as soluções para os
problemas sejam encontradas com menos dificuldades.
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