Governo estuda fazer dívida em banco para custear desconto na conta de luz
Sem
recursos para aportar nos fundos do setor elétrico, equipe econômica do
governo discute a possibilidade de pegar empréstimos na Caixa e no
BNDES, mas manobra contábil provoca polêmica e ainda não foi definida.
Para
fechar o buraco nos dois principais fundos do setor elétrico sem
impactar imediatamente as contas públicas, o governo pode adotar mais
uma manobra financeira que vai pesar na contabilidade de bancos
públicos. A engenharia contábil prevê o uso de empréstimos da Caixa e do
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aos
fundos, que não possuem receita suficiente para pagar estes aportes.
Segundo
fontes ouvidas pelo Estado, a ideia é injetar empréstimos de um ou dos
dois bancos públicos na Reserva Global de Reversão (RGR) e na Conta de
Desenvolvimento Energético (CDE). Mais à frente, o débito seria quitado
pelo Tesouro Nacional, que venderia papéis da dívida no mercado para
levantar dinheiro e repassar aos fundos. O governo espera, assim, evitar
um aumento na dívida líquida do País.
O
esforço do governo para montar a operação começou depois da revelação,
pelo Estado, de que as contas iniciais deram errado e foi preciso gastar
mais do que o previsto para bancar o desconto de 20% nas tarifas de
energia residencial, uma das bandeiras de Dilma Rousseff e trunfo
eleitoral para 2014. Na prática, sobrou para o contribuinte uma conta
bilionária.
Sem
dinheiro. Com o cofre praticamente zerado, a CDE já é sustentada pelo
Tesouro e, em última análise, pelo contribuinte. Em junho, o aporte foi
de R$ 1,455 bilhão. A RGR também deve precisar de recursos federais em agosto. Os dois fundos continuam com despesas bilionárias para arcar.
A
RGR, por exemplo, é usada para pagar as indenizações às empresas que
aderiram ao pacote de renovação antecipada das concessões, anunciado por
Dilma no ano passado - despesa que soma pelo menos R$ 10 bilhões até
2017. Já a CDE financia programas sociais, como o Luz para Todos, e
também o gasto com usinas térmicas, acionadas em situações extremas,
como foi preciso de outubro a julho, por causa da escassez de chuvas.
Permissão
legal. Diante da necessidade de repasses mensais do Tesouro para cobrir
tanto a RGR quanto a CDE, o governo avalia usar um dispositivo da Lei
12.783/2013, criada por Dilma no ano passado, que permite aos dois
fundos contratar operações de crédito, com o objetivo de cobrir
eventuais necessidades de indenização aos concessionários de energia
elétrica.
A
saída é considerada heterodoxa por fontes graduadas da própria equipe
econômica. Por outro lado, os defensores desta medida apontam que ela
não constituiria mais uma manobra contábil do Tesouro, uma vez que o
governo realizará o pagamento do empréstimo com despesas primárias.
Vantagem.
O benefício desta alternativa seria o de adiar este gasto. Em vez de
continuar com os repasses mensais aos fundos, que passariam a ter o
crédito bancário como fonte de recursos, o Tesouro só voltaria a
realizar aportes após um período de carência.
O
martelo não está batido. Os críticos dessa medida apontam que, embora
ela seja legal, seria mais uma mancha na reputação do Tesouro, duramente
abalada por causa das diversas manobras contábeis realizadas no fim do
ano passado para cumprir a meta fiscal. Se a despesa será do Tesouro do
mesmo jeito, que seja feita de uma vez, sem subterfúgios, disse uma
fonte do governo.
Como
as obrigações da CDE aumentaram de forma imprevista, o governo usou o
caixa da RGR para cobrir o rombo, e, assim, criou outro. Somente em
maio, R$ 3,65 bilhões saíram da RGR para a CDE. Outros R$ 1,341 bilhão
foram transferidos em junho. Essa operação também foi revelada pelo Estado na semana passada.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
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