MPGO - Escola indígena de Rubiataba deverá ter projeto político pedagógico específico
Os professores da Escola Estadual
Indígena Cacique José Borges, localizada em Rubiataba, entregaram na
última quinta-feira (27/6) ao Ministério Público de Goiás e ao
Ministério Público Federal reivindicações para que a unidade escolar
tenha mais flexibilidade no calendário, contemplando conteúdos relativos
à cultura indígena. Os professores, que são todos da etnia tapuia,
alegam que o conteúdo a ser ministrado não tem permitido a introdução de
temas afetos à cultura e aos costumes indígenas.
Participaram da reunião,
realizada na sede da Subsecretaria Regional de Educação de Rubiataba, a
coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação, Simone Disconsi
de Sá Campos; a procuradora da República em Anápolis, Ana Paula Araújo;
a subsecretária regional de Educação, Jovenília Bié de Lima,
integrantes da secretaria, professores, integrantes do Conselho
Indigenista Missionário, além do cacique Dorvalino Augusto da Silva e do
vice-cacique Welington Brandão.
Assim, por sugestão do
MP-GO, os docentes vão elaborar o plano político pedagógico da escola,
que deverá contemplar a adequação do calendário para que atenda às
especificidades da escola. Entre as queixas está a de que as datas
comemorativas e celebrações específicas da etnia não têm sido
reconhecidas como conteúdo pedagógico. “Nem tudo o que ensinamos para os
alunos pode ser ministrado em sala de aula. Nossa cultura tem grande
apreço pela terra, então, durante o plantio da mandioca precisamos levar
os alunos para aprender a técnica de cultivo”, ponderou o vice-cacique e
também professor da escola, Welington Brandão. Ele esclarece que a
intenção é de que o conteúdo seja desenvolvido em três eixos: ciência da
cultura, da natureza e da linguagem.
A tutora da subsecretaria,
Denilza Araújo de Oliveira, argumentou que é possível haver
flexibilidade de conteúdo, desde que planejada e justificada a forma
como foi ministrado e que corresponda à carga horária mínima exigida
pela Seduc. Os professores, contudo, argumentaram que no falecimento de
um ancião, que é um evento imprevisível, deve ser respeitado o luto de
três dias.
Dessa forma, a promotora
Simone Disconsi sugeriu que no projeto político pedagógico estejam
previstas as datas importantes para a comunidade e outros ritos que
eventualmente possam ocorrer durante o ano letivo, estabelecendo-se um
calendário específico. “Precisamos construir um plano que respeite a
cultura indígena, mas sem deixar de lado o conteúdo mínimo exigido em
lei”, afirmou.
O vice-cacique ressaltou que
eles desejam que as crianças e adolescentes conheçam as raízes da
cultura indígena, mas também estejam preparados para concorrer a uma
vaga em universidades públicas e particulares. “Este é um grande
desafio”, analisou a promotora Simone Disconsi.
A procuradora Ana Paula
Araújo acrescentou que a escola indígena tem caráter singular, pois é um
ambiente que deve possibilitar a reafirmação da cultura. Assim, ela
comprometeu-se a fazer o levantamento de como este tema é tratado em
Estados que têm escolas indígenas, como Tocantins e Rondônia. A convite
do MP-GO, o MPF integrará o grupo que vai auxiliar a unidade escolar a
definir o novo calendário para a escola indígena.
Em Goiás, o ensino indígena é
acompanhado pela área de Educação no Campo da Seduc, que, além do
ensino rural, engloba também as escolas quilombolas.
Deliberações
Além do levantamento sobre
os projetos políticos pedagógicos de outras unidades escolares
indígenas, outra deliberação da reunião foi o agendamento, pelo MP-GO,
de uma reunião no Conselho Estadual de Educação. Neste encontro, os
professores pretendem sugerir a inclusão de um representante indígena no
conselho.
A promotora Simone Disconsi
também comprometeu-se a convidar uma equipe de professoras da
Universidade Federal de Goiás (UFG) que já têm estudos sobre a educação
indígena, para auxiliar os professores na elaboração do projeto
pedagógico, que deverá ser entregue até o dia 15 de agosto à secretaria.
Conforme apontou os professores, a ideia é que a proposta seja
construída coletivamente.
A diretora da escola,
Adriana Rosário da Silva, comemorou os avanços das tratativas. “Creio
que agora temos um diálogo aberto com a subsecretaria sobre as nossas
reivindicações, que são tão importantes para a nossa comunidade”,
destacou. A promotora Simone Disconsi também avaliou positivamente o
encontro.
Fonte: Ministério Público de
Goiás
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