Câmara opta por caminho mais longo para acabar com votação secreta nas cassações
Deputados
desenterram proposta que tramita há 12 anos, aprovam o texto que abre
votação em todas as casas legislativas do País em 2º turno e enviam a
matéria para o Senado; líderes, no entanto, trabalham para barrar
projeto paralelo com efeito imediato
Encurralada
após livrar da cassação o deputado Natan Donadon (sem partido-RO),
preso desde junho, a Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira, 3,
por unanimidade dos 452 presentes, uma proposta que acaba com o voto
secreto em todos os Legislativos do País. Agora, a proposta vai ao
Senado.
Apesar
da aparência moralizadora, a decisão embute uma armadilha. Trata-se do
caminho mais longo para que as sessões de cassação de mandato tenham
voto aberto. Isso porque há um outro projeto, já de tramitação mais
adiantada, que poderia ser votado o quanto antes.
Líderes
da Câmara, porém, se recusam a aprovar proposta paralela que abriria de
imediato o voto em casos de cassação de mandato. Assim, somente após a
aprovação pelos senadores da nova proposta, a mudança viraria realidade.
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), já fez críticas,
ontem mesmo, ao encaminhamento dado pela Câmara ao assunto.
A
escolha do voto aberto como resposta ao caso Donadon foi comandada pelo
presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Peço desculpas
ao povo brasileiro por aquela sessão que surpreendeu negativamente o
País, disse.
A
sessão que livrou Donadon ocorreu na quarta-feira passada. Naquele
mesmo dia, Alves decretou o afastamento compulsório do deputado sob o
argumento de que ele não poderia deixar a cadeia para exercer o mandato.
Anteontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso
anulou a sessão de quarta, em decisão liminar. A resposta final do
tribunal será dada na semana que vem, conforme previsão do presidente da
Corte, Joaquim Barbosa.
Pressa.
O presidente da Câmara alegou a necessidade de uma resposta imediata à
atual situação de desgaste dos deputados e colocou, por esse motivo, a
PEC que abre os votos em todos os casos. O texto foi apresentado em 2001
pelo então deputado Luiz Antonio Fleury e aprovado em 1.º turno em 2006. A regra é estendida a assembleias legislativas e câmaras municipais.
Alves
afirma agora que vai trabalhar para colocar em votação a outra PEC, a
que abre o voto apenas em casos de cassação, já no próximo dia 18 de
setembro.
O
líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), ressaltou, porém, que considera o
tema encerrado e não apoiará a votação da proposta que trata apenas de
casos de cassação. Não faço paliativo. Não vou votar uma PEC menor
depois. Voto hoje e está resolvido, afirmou Cunha.
O
presidente do Senado, que terá de lidar com o texto aprovado ontem,
reagiu logo em seguida. O razoável era aprovar essa proposta que já
passou no Senado porque em poucos dias seria promulgada. Votar a
ampliação, que ainda não tramitou no Senado, não significa dar passo
adiante, avançar no calendário, afirmou Renan Calheiros.
Assunto
velho. Projetos sobre a abertura de votos em sessões hoje secretas
tramitam na Câmara desde 2001. Sucessivas absolvições de parlamentares
ao longo dos últimos anos aumentaram a pressão para que o sigilo fosse
derrubado, mas o corporativismo conseguiu ir adiando a discussão sobre o
assunto.
Apesar
de Alves ter afirmado ainda na semana passada que não colocará mais em
plenário processos de cassação sob voto secreto, parlamentares do PT e
aliados faziam contas para verificar se a opção pela PEC mais demorada
não poderia beneficiar os quatro deputados condenados no mensalão,
empurrando os casos para uma votação secreta em plenário.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
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