Programa cria regras para elaboração de listas e proteção de espécies ameaçadas
As
novas listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção no Brasil - que
estão em fase de elaboração - atenderão aos padrões internacionais de
avaliação de risco e passarão a ser atualizadas continuamente, ano a
ano, e não mais apenas em intervalos isolados, como ocorre atualmente.
Além disso, para cada espécie identificada como ameaçada, deverá ser
desenvolvido um plano de ação para retirá-la da lista o mais rápido
possível.
É
o que prevê o novo Programa Nacional de Conservação das Espécies
Ameaçadas de Extinção (Pró-Espécies), que deveria ser criado hoje, com a
publicação de uma portaria do Ministério do Meio Ambiente (MMA) no
Diário Oficial da União. Segundo o secretário de Biodiversidade e
Florestas da pasta, Roberto Cavalcanti, o programa “agrega uma série de
elementos que já vêm sendo desenvolvidos” dentro de uma estratégia
nacional de conservação da biodiversidade, “dando muito mais solidez ao
processo”.
Daqui
para frente, todas as listas nacionais de espécies ameaçadas obedecerão
aos critérios da União Internacional para Conservação da Natureza
(IUCN), que não foram seguidos nos procedimentos anteriores. As listas
oficiais atuais não trazem nem mesmo uma categorização do grau de ameaça
de cada espécie (se estão criticamente em perigo ou apenas vulneráveis,
por exemplo).
“O
programa traz um avanço muito significativo nesse sentido”, avalia
Gustavo Martinelli, coordenador do Centro Nacional de Conservação da
Flora (CNC Flora) do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio
de Janeiro (JBRJ), que participou da elaboração da portaria. “É a
primeira vez que o Brasil adota oficialmente esses critérios
internacionais de avaliação. Antes, isso não estava explicitado.”
O
JBRJ será a instituição responsável por avaliar o estado de conservação
das espécies de flora do país, enquanto que as avaliações da fauna
caberão ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
(ICMBio). Essas avaliações
servirão, então, como subsídio científico para a elaboração e
atualização periódica das Listas Nacionais Oficiais de espécies
ameaçadas de plantas e animais, respectivamente.
Segundo
a portaria, “as atualizações das Listas Nacionais Oficiais serão
divulgadas anualmente” pelo MMA. Isso não significa, porém, que uma nova
lista será publicada a cada. Segundo Cavalcanti, as atualizações serão
feitas pontualmente, para espécies ou grupos de espécies específicos, à
medida que novas informações científicas sobre o seu estado de
conservação se tornarem disponíveis (por meio das avaliações periódicas
coordenadas pelo Jardim Botânico e pelo Instituto Chico Mendes). “Uma
das grandes vantagens do Brasil é que não nos faltam pesquisadores com
qualificação internacional nessa área”, aponta o secretário. A meta é
fazer uma revisão completa de cada lista “com uma periodicidade máxima
de cinco anos”, segundo a portaria.
É
o que a IUCN faz há 50 anos com sua famosa Lista Vermelha de espécies
ameaçadas no mundo, que é revisada periodicamente por grupos de
especialistas em determinados grupos taxonômicos. O grupo reavaliado
mais recentemente foi o de peixes cartilaginosos (tubarões, raias e
quimeras), revelando que 1/4 deles está ameaçado de extinção.
Defasagem.
As listas oficiais do Brasil estão bastante defasadas. A de fauna é de
2003, e a de flora, de 2008. Segundo Cavalcanti, as avaliações
científicas que vão subsidiar a elaboração das novas listas já foram
submetidas ao MMA; porém, não há prazo definido para a publicação das
listas oficiais. O JBRJ publicou recentemente, em dezembro de 2013, o
Livro Vermelho da Flora do Brasil, com uma avaliação de 4.617 espécies
de plantas brasileiras, das quais 2.118 foram consideradas ameaçadas de
extinção (muito mais do que as 472 mencionadas na Lista Nacional Oficial
de 2008). Ainda assim, ressalta Martinelli, “é menos de 4% de toda a
biodiversidade de flora do Brasil”, estimada em mais de 43 mil espécies.
O
Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, publicado pelo
ICMBio, é de 2008. Segundo ele, há 627 espécies de animais já extintos
ou ameaçados de extinção no país. Esses livros, porém, são apenas
referências científicas - não são listas oficiais, com poder de lei (que
o Ibama pode usar para prender ou autuar um infrator, por exemplo).
Além
das regras para elaboração das listas, a portaria prevê a elaboração de
Planos de Ação Nacionais (PANs) para a conservação de todas as espécies
ameaçadas. “Não adianta só dizer que uma espécie está ameaçada; é
preciso estabelecer metas para tirá-la da lista o mais rápido possível”,
diz Cavalcanti. “O objetivo da lista não é ser apenas um depósito de
nomes, é dar subsídio para ações que permitam resolver a situação dessas
espécies.” Exemplos de sucesso como os do mico-leão-dourado e da
arara-azul, segundo ele, mostram como é possível resgatar populações e
melhorar o status de espécies ameaçadas, com conhecimento científico e
projetos eficientes de conservação.
A
página do ICMBio possui uma lista de 53 PANs já elaborados nos últimos
dez anos; alguns deles para espécies específicas, como o lobo-guará,
outros para grupos de espécies ou hábitats, como as cavernas e os
lagartos e anfíbios (herpetofauna) de ilhas. Vários deles, segundo a
avaliação do próprio instituto estão atrasados ou com problemas de
execução, como os da onça-pintada e dos papagaios da Mata Atlântica.
Apenas
dois dos 53 PANs existentes são para flora: um para cactáceas e outro,
para as sempre vivas. Segundo Martinelli, a metodologia para elaboração
desses planos para plantas está sendo revista, para torná-los mais
eficientes e abrangentes. A estratégia proposta, em vez de olhar para
espécies ou mesmo grupos individuais, é fazer planos de ação regionais
para áreas que abriguem um grande número de espécies ameaçadas
simultaneamente - como, por exemplo, a Serra do Espinhaço, nos Estados
de MG e BA.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo
Comentários
Postar um comentário