Sem reforma do sistema prisional não é possível recuperar condenados, dizem debatedores
A
recuperação e a reinserção social dos presos no Brasil são praticamente
impossíveis devido à superlotação dos presídios e à mistura de
condenados por crimes graves e por infrações de menor periculosidade. O
diagnóstico foi feito por debatedores e senadores que participaram de
audiência pública da Comissão Temporária de Reforma do Código Penal na
tarde de ontem (11).
O
ex-diretor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) Ângelo
Roncalli; o secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da
Justiça, Marivaldo de Castro Pereira; e a promotora de Justiça do
Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) Fabiana Costa Barreto,
comentaram dados do sistema penitenciário e a adoção de penas
alternativas, além de responderem questionamentos dos senadores.
A
reunião foi conduzida pelo senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) e pelo
senador Pedro Taques (PDT-MT), relator do colegiado, que examina o
projeto do novo Código Penal (PLS 236/2012). Também participaram do
encontro os senadores Magno Malta (PR-ES), Eduardo Suplicy (PT-SP) e
José Pimentel (PT-CE).
População carcerária
Ângelo
Roncalli, também ex-secretário de Justiça do estado do Espírito Santo,
ressaltou que o Brasil tem a quarta população carcerária do mundo,
ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Rússia. Em número de
crimes, o país ocupa a 20ª colocação, ressaltou.
Segundo
Roncalli, a população carcerária no Brasil cresceu 78% entre 2003 e
2012. No mesmo período, o crescimento populacional do país foi de 30%.
Em sua avaliação, o sistema prisional não consegue acompanhar o grande
aumento do número de prisões efetuadas. Ele acrescentou que o déficit de
vagas nas prisões brasileiras é de mais de 250 mil, além de as prisões
não terem condições de habitabilidade. Para ele, o país precisa
urgentemente de uma reforma do sistema prisional.
-
Nosso sistema está destroçado, é quase impossível a recuperação dos
presos. Nas condições atuais não há chance de recuperação e reinserção. A
superlotação impede um tratamento penal adequado de recuperação -
afirmou Roncalli ao pontuar que a taxa de reincidência criminal gira em
torno de 70% segundo o Ministério da Justiça.
O
ex-diretor do Depen sugere o fortalecimento das políticas sociais, com
foco na prevenção a crimes e no atendimento da população de maior risco e
vulnerabilidade econômica e social.
- Não dá para resolver todos os problemas com Direito Penal - disse.
Roncalli
também defendeu maior atenção do estado com os chamados egressos
penitenciários, pessoas que já cumpriram pena e buscam reinserção
social. Na maior parte dos casos, o ex-detento encontra grandes
dificuldades para arranjar emprego, observou.
- Tem preso que pede para não sair do sistema, pois lá ele tem emprego - declarou.
Penas alternativas
A
promotora Fabiana Costa Barreto, que integra grupo de trabalho do
governo sobre o Sistema Nacional de Alternativas Penais, disse que o
Brasil tem “um sistema prisional bilionário”, enquanto os programas de
penas alternativas contam com poucos recursos. De acordo com Fabiana,
pesquisas já mostraram que a sociedade brasileira apoia as alternativas
penais como instrumentos eficazes de punição.
Ela
criticou o anteprojeto do Código Penal em tramitação no Senado por
instituir que o descumprimento das penas alternativas ocasione a
regressão para o regime semiaberto, enquanto a atual legislação permite a
regressão para o regime aberto.
Para
a promotora, endurecer a lei para os reincidentes de maneira geral não é
eficaz. Fabiana disse que a reincidência em crimes de furto é de 19%
entre os condenados que cumprem penas alternativas e de 40% a 60% entre
aqueles que cumprem penas restritivas de liberdade.
Por
sua vez, Marivaldo de Castro Pereira classificou como assustador o
constante aumento da população carcerária brasileira. Segundo ele, além
de custarem caro ao contribuinte, os presídios são ambientes onde há
constante violação dos direitos dos presos e nos quais não ocorrem
recuperação ou reeducação.
-
A maioria acaba saindo pior do sistema. A sociedade está custeando um
sistema que, ao invés de dar segurança à população, piora os criminosos.
A reintegração social do preso é inviável nesse sistema, a reincidência
é muito alta. São urgentes a ampliação de vagas e o aperfeiçoamento do
sistema prisional - afirmou.
Marivaldo
defendeu institutos como a remissão de pena pelo estudo, por ser eficaz
na reinserção social dos condenados. Em sua opinião também deveria ser
respeitada a legislação que prevê que as fianças sejam fixadas de acordo
com a realidade econômica do apenado, o que ajudaria a diminuir o
“enorme número de presos provisórios”.
Eficiência
Em
resposta ao senador Taques, Marivaldo e Fabiana informaram que apenas
nove tipos de crimes são responsáveis por praticamente 80% da população
carcerária do país. Entre essas condutas estão roubo, tráfico de
entorpecentes, roubo qualificado, furto e outros crimes patrimoniais.
Fabiana reafirmou, em resposta aos senadores, que a proposta do novo
Código Penal trata de maneira muito severa quem já tem alguma condenação
criminal”.
Também
respondendo aos senadores, Marivaldo afirmou que os sistemas penal e
judiciário precisam aumentar sua eficiência processual, o que também
ajudaria a diminuir o número de presos provisórios.
O
senador Magno Malta (PR-ES) aproveitou o debate para voltar a defender a
redução da maioridade penal. Segundo ele, “homens travestidos de
crianças” cometeram crimes trágicos nos últimos dias em São Paulo e no Espírito Santo, o que estaria se tornando comum no país.
Fonte: Senado Federal
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