Operação do Gecoc prende 10 vereadores e ex-vereadores em Santana do Ipanema
Três
vereadores e 11 ex-vereadores da Câmara Municipal da cidade de Santana
do Ipanema, situada no Sertão de Alagoas, foram denunciados pela 2ª
Promotoria de Justiça da comarca de Santana do Ipanema e pelo Grupo
Estadual de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc) do Ministério
Público Estadual de Alagoas (MPE/AL) sob a acusação de uma série de
ilícitos penais, a exemplo de dispensa ilegal de licitação, peculato,
falsidade ideológica e formação de quadrilha. O bando é apontado como
responsável pelo desvio de R$ 2.318.009,57 dos cofres públicos daquele
Poder Legislativo.
Na denúncia ofertada à 17ª Vara Criminal da Capital,
além da condenação dos acusados pelos crimes praticados, o Ministério
Público Estadual também pediu as prisões preventivas de todos os
envolvidos, solicitação que foi atendida pelos Colegiado. Os mandados de
prisão foram cumpridos no município sertanejo, em parceria com a
Polícia Civil, através da Divisão Especial de Investigações e Capturas
(Deic), na última sexta-feira (08), que disponibilizou 40 homens e 10
viaturas para realizar o trabalho.
Estão
presos atuais vereadores Luciano Gaia Nepomuceno, Genildo Bezerra da
Silva e José Vaz. A operação também prendeu os ex-parlamentares Ademildo
Soares dos Santos, Adenílson Oliveira Silva, José Enaldo de Melo, Ana
Cláudia Nunes, Eudes Vieira da Paixão, Kátia de Oliveira Barros Gaia e
Josefa Eliana Silva Bezerra. Todos foram presos em casa e ninguém reagiu
à prisão. Quatro denunciados não foram localizados porque dois estariam
em São Paulo, um porque reside em Maceió e outro em Mata Grande. O
MPE/AL e a Polícia Civil (PC) estão tentando achar os endereços deles.
Os acusados foram levados para a sede da Deic, onde serão ouvidos. Em
seguida vão para o Instituto Médico Legal (IML) para realização dos
exames de corpo de delito. Por último ficarão detidos na Casa de
Custódia da PC.
Na
denúncia ofertada pelo MPE, Eudes Vieira da Paixão, no ano de 2008,
José Enaldo de Melo, nos anos de 2009 e 2010 e Josefa Eliana Silva
Bezerra, entre 2011 e 2012, os quais foram, respectivamente, nos
períodos acima indicados, vereadores-presidentes daquela Casa
Legislativa e, portanto, ordenadores de despesas, são acusados de
capitanear uma organização criminosa integrada por agentes públicos que
praticou uma profusão de ilícitos penais no âmbito da administração
pública da Câmara Municipal de Santana com o objetivo de lesar o erário
no período entre 2008 e 2012. As investigações, que tiveram início em
dezembro do ano passado, após o cumprimento de medidas cautelares em
diversos órgãos municipais, analisou cerca de cinco mil documentos
recolhidos e sete depoimentos prestados ao Gecoc.
Após
minuciosa análise realizada na documentação obtida em consequência do
deferimento e execução dos mandados de busca e apreensão, os promotores
de Justiça Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, Luiz Tenório Oliveira de
Almeida, Antônio Luiz dos Santos Filho, Hamilton Carneiro Júnior e
Elísio da Silva Maia Júnior, detectaram que houve o pagamento de
diversas despesas realizadas pela Câmara Municipal de Santana do
Ipanema, mais especificamente relacionadas a contratos de locação de
veículos e a aquisição de combustíveis, e que tais despesas foram
quitadas através da Verba indenizatória de Atividade Parlamentar –
VIAPs, mais conhecida como verba de gabinete. Entretanto, tais
pagamentos foram ilegais porque afrontaram disposições que regulamentam
as despesas públicas, estabelecidas pela Lei nº 4.320/64, bem como os
preceitos contidos na Lei nº 8.666/93, que regulamentam o artigo nº 37,
inciso XXI, da Constituição Federal e institui normas para as licitações
e contratos administrativos. Por conta disso, a fraude à licitações
causara um dano aos cofres daquele Parlamento de R$ 2.318.009,57.
Vereadores continuam fazendo parte do esquema
O
esquema, que começou a ser configurado ainda em 2008 por Eudes Vieira
da Paixão, continuou a ocorrer até o final do ano passado, período que
foi alvo da investigação do Gecoc. Três vereadores que permanecem com
mandato porque foram reeleitos em 2012, fizeram parte do ilícito: José
Vaz, Genildo Bezerra da Silva e Luciano Gaia Nepomuceno.
Adenilson
Oliveira Silva, Afonso Benjamim Gaia Nepomuceno, José Edson Magalhães,
Kátia de Oliveira Barros Gaia, José Enaldo de Melo, Gilmar França Nobre,
Josefa Eliana Silva Bezerra, Jaelson Rocha Lima, Ana Cláudia Nunes,
Eudes Vieira da Paixão e Ademeildo Soares Santos, também envolvidos na
fraude, são ex-parlamentares.
Como aconteciam as fraudes
Para
burlarem a Lei nº 8.666/93 - Lei de Licitações -, durante os anos de
2009, 2010 e 2011, no âmbito do Legislativo de Santana do Ipanema, 48
contratos de locação de veículos, por motivos escusos, foram dolosamente
direcionados pelos denunciados José Enaldo de Melo, Gilmar França
Nobre, Josefa Eliana Silva Bezerra, Jaelson Rocha Lima, Luciano Gaia
Nepomuceno, Genildo Bezerra da Silva, Ana Cláudia Nunes, Eudes Vieira da
Paixão e Ademeildo Soares Santos. Todos, à época, estavam na condição
de vereadores. Então, para conseguir fraudar a referida legislação, que
prevê a modalidade de dispensa de licitação apenas quando o valor dos
serviços ou das compras não for superior a R$ 8 mil anuais, os então
parlamentares não evidenciavam a necessidade contínua daquele tipo de
serviço para cada um dos exercícios financeiros. “Eram despesas
previsíveis e ordinárias, justificadoras, portanto, do seu normal de
processamento e da realização do certame licitatório. Contudo, a
intenção de dolo foi provocada porque os vereadores firmaram pequenos
prazos de vigência dos contratos, a fim de que as despesas deles
oriundas não demonstrassem a necessidade da licitação”, explicou Alfredo
Gaspar de Mendonça.
Durante
esse período foram locados carros que perteciam a Antônio Batista
Amorim, José Petrúcio de Brito, Maria Gorete Gomes da Silva, José
Aparecido Davi, Odair Alves Feitosa, Eliete Rodrigues Pimentel, José
Ferreira Souza, Erisvan Barbosa de Melo, Adenilson Oliveira Silva, Ramom
Camilo Silva, Roberto Cézar Oliveira Silva, José Umbelino da Rocha,
Elza Soares de Carvalho, Jurandir José Soares, Ademar de Novais Melo,
Leonice Amélia dos Santos, Valdemar José dos Santos, João Gomes da
Silva, José Arlindo Nunes de Araújo, Admark Gomes Damasceno, José
Adriano Soares Machado, João Gomes da Silva, Geovana de Melo Lima,
Jaílson José Santana, Maria Gorete Gomes da Silva, Evaristo Barbosa de
Melo, Valdimira da Silva Veloso e Vicente dos Santos. Todos eles eram
ligados aos vereadores, fosse por laço de amizade, ou por conta da
política. “São pessoas que foram beneficiadas com a obtenção de lucros
às custas do dinheiro público, mais precisamente através da VIAPs, que,
legalmente, deveria ser somente aplicada nas despesas de manutenção e
apoio das atividades parlamentares. Tal prejuízo chegou ao montante de
R$ 727.700,00 (setecentos e vinte e sete mil e setecentos reais)”,
detalhou Luiz Tenório.
Também
ganhou estranheza ao Gecoc a falta de critérios para as escolhas dos
automóveis, mesmo sem o devido procedimento legal, haja vista que
existiam carros de marcas, modelos e datas de fabricação dos veículos
completamente suspeitas. Como foram os casos do VW/Voyage/1988, de cor
bege, placa MUM-9336/AL; GM Corsa Super/1997, de cor verde, placa
CIM-7827/AL; Fiat Uno Mille /1997, de cor vermelha, placa MUT-3899/AL;
GM Vectra/1997, de cor prata, placa MUM-9960/AL e o GM Monza/1987, de
cor azul, placa MUI-9665/AL. Por cada um era paga uma quantia mensal de
R$ 1,7 mil.
Ainda
segundo o MP/AL, para agravar ainda mais a situação ilícita já acima
relatada, parte dos processos de pagamento foi constituída,
administrativamente, de forma irregular, haja vista que não foram
cumpridas as etapas de publicação dos contratos na imprensa oficial, a
confecção das notas de empenho, que deveriam destinar a reserva de
dotação orçamentária para os devidos pagamentos dos alugueis dos carros e
não houve a fase da liquidação, que implica na verificação do direito
adquirido pelos credores, através de títulos e documentos comprobatórios
dos respectivos serviços prestados.
O pagamento ilegal de combustíveis
Também
depois de investigar os documentos apreendidos após o cumprimento das
medidas cautelares, o Ministério Público Estadual descobriu que, durante
os anos de 2008, 2009, 2010 e 2011,no âmbito da Câmara Municipal
daquela entidade, foram realizadas 442 compras relacionadas a
combustíveis. Todas, segundo o Gecoc, foram dolosamente direcionadas
pelos mesmos denunciados José Vaz, Genildo Bezerra da Silva, Luciano
Gaia Nepomuceno, Adenilson Oliveira Silva, Afonso Benjamim Gaia
Nepomuceno, José Edson Magalhães, Kátia de Oliveira Barros Gaia, José
Enaldo de Melo, Gilmar França Nobre, Josefa Eliana Silva Bezerra,
Jaelson Rocha Lima, Ana Cláudia Nunes, Eudes Vieira da Paixão e
Ademeildo Soares Santos.
As
empresas que foram beneficadas foram Adilza S. F. Ramos, José Carlos
Moroni Valença & Cia Ltda; José Carlos Moroni Valença & Cia
Ltda; Marlene Falcão Vanelença & Cia Ltda - Epp; Auto Posto Santana
Ltda; Gilberto T. de Morais e Cia Ltda; Irmãos Jota Pinto & Cia
Ltda; Rocha Comércio de Combustíveis Ltda, atualmente denominada Wharla
Comércio de Combustível Ltda – Epp; e Lemos e Damasceno Combustíveis
Ltda. “Todos os envolvidos tiveram lucros às custas do dinheiro público,
mais precisamente às custas das Verba Indenizatória de Atividade
Parlamentar. Ao Gecoc, ficou evidenciado que os referidos recursos foram
desviados pelos denunciados para fim diverso de sua destinação
específica, causando, como consequência, uma verdadeira dilapidação do
erário municipal, através da prática de reiteradas atividades ilícitas,
causando um prejuízo de R$ 1.590.309,57 (um milhão, quinhentos e noventa
mil, trezentos e nove reais e cinquenta e sete centavos ) aos cofres
públicos”, detalha a denúncia do MPE/AL.
Da
mesma forma que agiram com relação aos contratos para aluguel de
automóveis, os vereadores não realizaram processo licitatório para a
aquisição de combustíveis. “Através de pequenas compras, não há que se
duvidar, pois, que tais iniciativas tiveram como objetivo evitar
fraudulentamente a realização dos necessários e imprescindíveis
procedimentos licitatórios”, diz outro trecho da denúncia.
O
Gecoc também constatou que houve aquisição de combustível inadequado
para os tipos de veículos alugados, a impossibilidade de se identificar
os carros que foram abastecidos e a totalidade dos mesmos, não se
vislumbrando, do mesmo modo, nenhum controle sobre as rotas ou
distâncias por eles percorridas. “Não há dúvidas, diante de tais fatos,
que os denunciados, em benefícios dos sócios das empresas que pertencem
aos seu amigos e correligionários, entre os anos de 2008 e 2011,
patrocinaram uma verdadeira farra com o dinheiro público”, declarou o
promotor Antônio Luiz dos Santos Filho.
Num
dos depoimentos colhidos pelo Gecoc, Fagner César Nunes de Morais,
administrador da empresa Gilberto T. de Morais e Cia Ltda, confessou que
“o vereador Jaelson Rocha Lima pedia ao declarante uma nota fiscal em
valor por ele determinado e que o valor excedente ficava para ser pago
no mês subsequente”. O esquema funcionava dessa forma para que,
mensalmente, o volume de dinheiro não ultrapasse os R$ 8 mil previstos
na Lei de Licitações.
Dos crimes
Pelos
contratos irregulares e a ausência dos documentos necessários para a
aquisição dos automóveis e dos combustíveis, o Gecoc pede que Eudes
Vieira Da Paixão, Josefa Eliana Silva Bezerra e Genildo Bezerra Da Silva
sejam condenados pelo crime de falsidade ideológica por 79, 63 e 60
vezes, respectivamente.
Já
pelo crime de uso de documento falso, o pedido do MPE/AL também é pela
condenação dos três acusados por 79, 63 e 60 anos. Os demais denunciados
deverão responder igualmente pelos mesmos ilícitos penais e, todos
juntos, ainda pelo crime de dispensa ilegal de licitação e peculato.
“Considerando-se
o teor da ação, verifica-se, de forma clara e incontestável, que
centenas de processos de pagamento relacionados aos empenhos emitidos e
aos pagamentos realizados pela Câmara Municipal de Santana do Ipanema,
durante os exercícios financeiros de 2008, 2009, 2010 e 2011, foram
aviltantemente fraudados pela organização criminosa capitaneada pelos
denunciados à época, presidentes da Casa legislativa e ordenadores das
despesas, de modo que seus integrantes pudessem se apropriar
criminosamente do dinheiro público, em profundo prejuízo à
municipalidade que, em consequência, viu-se privada de ações que visem à
melhoria da qualidade de vida da sua população”, detalha mais outro
trecho da denúncia do Gecoc.
O pedido de prisão cautelar
O
Gecoc pediu as prisões de todos os denunciados no esquema já
mencionado. “Em liberdade, os denunciados causarão sérios transtornos à
instrução criminal, um dos fundamentos autorizadores da decretação das
suas prisões preventivas, uma vez que, sem restrição da liberdade de
locomoção, eles serão capazes de subverter o conjunto probatório, de
intimidar testemunhas, os familiares das testemunhas ou qualquer outra
pessoa que se disponha a ofertar informações sobre eles, sobre a
organização criminosa a que pertencem ou a respeito dos fatos a eles são
imputados”, justificaram os promotores de Justiça ao solicitar as
prisões.
“Além
do que, se continuarem em liberdade, os denunciados, em razão da
influência e do poder que detém, com certeza, direta ou indiretamente,
praticarão novos crimes da mesma espécie, seja porque são acentuadamente
propensos a práticas delituosas dessa natureza, seja porque, uma vez em
liberdade, encontrarão os mesmos estímulos relacionados às infrações
penais por eles já cometidas. Aliás, a tal respeito, vale lembrar que,
embora não se tenha firmado na jurisprudência um conceito estratificado
para a expressão “garantia da ordem pública“, a conduta dos denunciados
deve ser apontada, também, como fator preponderante para a decretação
das medidas de exceção ora pleiteadas”, requereu o MPE/AL.
A
Polícia Civil entende como excelente esse tipo de parceria estabelecida
com o Ministério Público Estadual. Estaremos sempre à disposição para
ajudar no combate ao crime organizado, disse a delegada Ana Luíza
Nogueira, coordenadora da Deic.
Fonte: Ministério Público de Alagoas
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